Ganhos ou seu dinheiro de volta
Carteiras de capital garantido despontam como opção para investidor que quer testar aplicações mais agressivas, mas sem embarcar nos vaivéns do mercado
Ganhos ou seu dinheiro de volta
Por Adriana Cotias De São Paulo
Com a bolsa batendo seus níveis máximos históricos e o dólar em um de seus menores preços, muitos investidores se sentem desconfortáveis em aplicar nesses segmentos. Ao mesmo tempo, juros em queda podem ser um convite irresistível à renda variável ou a investimentos mais agressivos. Essa combinação de temor e atratividade faz com que ressurjam os fundos de capital garantido, uma alternativa para quem gosta de risco, mas nem tanto.
Como o próprio nome diz, o fundo de capital garantido dá a segurança ao investidor de que, apesar de aplicar em mercados de maior risco, ele não perderá o principal aplicado se houver uma mudança drástica no cenário, para pior. Em linhas gerais, a estratégia dessas carteiras é investir uma pequena parcela do patrimônio no mercado de ações ou de derivativos, buscando uma rentabilidade maior do que na renda fixa convencional. Se a bolsa tiver um bom desempenho, por exemplo, essas carteiras ganham somente uma parte desses resultados. Já se o Ibovespa despencar, o investidor tem a segurança de que terá, pelo menos, o valor aplicado de volta, excluindo a taxa de administração, que varia de 2% a 3,5% ao ano. Vale lembrar que essas carteiras normalmente têm carência para resgates e datas específicas para captação.
Bancos como Bradesco, Citibank, Itaú, Safra e Santander Banespa têm o produto na prateleira. No primeiro semestre de 2006, será a vez da Fator Administração de Recursos e do Banco Real estrearem na categoria. “Tem se falado bastante nesse tipo de produto”, diz Luiz Maia, responsável pela ABN Amro Asset Management. “O cenário de juros em queda e bolsa em alta propiciam bastante esse tipo de fundo.”
Apesar de ser uma carteira de gestão um pouco mais sofisticada, há opções no varejo. O Banco Itaú, por exemplo, aceita aplicações a partir de R$ 250 para o Itaú Principal Garantido Multimercado, que acaba de ser reformulado. A instituição juntou oito portfólios de capital garantido numa única carteira. O prazo de captação e de carência é de 90 dias. Os períodos para aplicação e resgate são os últimos dias úteis de fevereiro, maio e novembro de cada ano. Nessas datas, se tudo der errado, o investidor pode sacar sem maiores prejuízo.
“É um fundo que tem apelo, principalmente, quando a tendência para os juros é de baixa, estimulando o investidor a buscar alternativas mais atraentes de rentabilidade”, afirma o diretor de Fundos de Investimentos do Itaú, Moacyr Castanho. Ele conta que a carteira, com patrimônio de R$ 30,2 milhões, é dominada por clientes que concentram seus investimentos em renda fixa e começam a colocar um pé na renda variável. Cerca de 95% da carteira está em títulos de renda fixa – públicos ou privados – e a parcela restante é destinada a estratégias com opções de ações. O fundo busca atingir pelo menos 40% da rentabilidade do Ibovespa.
O Banco Safra tem três carteiras de capital garantido e uma delas é cambial. O Safra Capital Garantido FX Total, com carência semestral, faz aplicações em dólar nos momentos de baixa e, independente da variação da moeda, o investidor tem o valor do principal investido em reais de volta. Em caso de alta, o cotista ganha 85% da valorização, limitada a 15% no período.
Até o fim da década de 90, os fundos de capital garantido chegaram a ser uma coqueluche no mercado brasileiro, com fundos com aniversários semanais. Em 1999, existiam 69 carteiras, de 15 administradores diferentes, com um patrimônio que beirava os R$ 500 milhões. Hoje, a categoria está limitada a sete fundos (um exclusivo, do BNP Paribas), que reúnem R$ 104,1 milhões, sem contar os fundos do Santander Banespa, que se distinguem dos demais por garantir não só o principal investido como a rentabilidade da poupança ao combinar uma apólice de seguro ao investimento. As carteiras são classificadas como mistas.
Como nos outros fundos do mercado, há janelas de captação periódicas e a próxima deve ser aberta no primeiro trimestre do ano que vem, diz o diretor-executivo da Santander Banespa Asset Management, Edvaldo Morata. Na última rodada, finalizada em outubro, o Multi Retorno Mais atraiu R$ 500 milhões e a carteira já conta com mais de R$ 1,1 bilhão, soma que ficará protegida por dois anos. Em outubro de 2004, o banco já tinha colocado na rede o Multi Retorno, com um seguro válido por um ano, captando R$ 500 milhões.
E, conforme antecipa Morata, o banco não vai parar por aí. Para 2006, outras carteiras estão sendo desenhadas. “Vamos ter uma família de capital garantido no varejo, todas de multimercados.” A expertise vem de fora. Na Europa o controlador, o espanhol Grupo Santander, tem tradição na oferta de fundos mistos e de capital garantido.
Ambiente para o ressurgimento da categoria há, conforme demonstrou a segunda venda do fundo Papéis Índice Brasil Bovespa (PIBB). A oferta atraiu quase 122 mil investidores de varejo para o R$ 1,725 bilhão em cotas da carteira que replica o IBrx-50, o índice que reúne as 50 ações mais líquidas da Bovespa. O sucesso da operação, que totalizou R$ 2,285 bilhões, foi atribuído ao compromisso do BNDES de recomprar as cotas entre o 12º e 15º mês de aplicação pelo valor originalmente investido, caso a bolsa desande.
O Banco Pactual já teve fundos de capital garantido no passado e tem feito algumas operações pontuais, em notas estruturadas, para clientes private e empresariais. Daí para a criação de carteiras com garantia de principal é só uma questão de tempo. “Basta ter um custo de oportunidade menor que o aplicador se interessa por investimentos em renda variável”, diz o sócio Marcelo Mesquita, responsável pela área de Gestão de Recursos. “Num primeiro momento, o investidor belisca esse tipo de produto antes de ir propriamente à bolsa.” (Colaborou Luciana Monteiro)