ISE busca a excelência entre as empresas brasileiras
ISE busca a excelência entre as empresas brasileiras
Rubens Mazon
ABolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) lança em 1º de dezembro o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE). Primeiro do gênero na América Latina, o ISE tem como objetivo estabelecer um padrão para as melhores práticas de gestão da sustentabilidade empresarial e um instrumento de mercado para incentivar a disseminação destas práticas nas companhias brasileiras.
O Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV (GVces), com apoio do Conselho do ISE (Cise), desenvolveu a metodologia para seleção das empresas que farão parte do índice. O Cise é composto por oito entidades da sociedade civil que atuam nas áreas de mercado de capitais e sustentabilidade.
O primeiro passo envolveu uma revisão bibliográfica e a análise de experiências internacionais. Os principais índices de sustentabilidade no mundo são o Dow Jones Sustainability Index (DJSI), lançado em 1999 em Nova York, o FTSE4good, criado em 2001 em Londres, e o Socially Responsible Index (SRI), instituído pela Bolsa de Valores de Joanesburgo em 2003.
Ao contrário do FTSE4, que deixa de fora as indústrias bélica, nuclear e tabagista, o ISE não exclui nenhum setor e opta pelo “positive screening”, que incentiva as companhias a rever e mudar suas práticas. Todos os elementos relativos à sustentabilidade de cada setor serão avaliados, incluindo riscos potenciais e impactos adversos associados à natureza dos produtos e serviços de cada empresa.
O conceito-base do ISE é o de “triple bottom line” (TBL), que avalia elementos econômico-financeiros, sociais e ambientais de forma integrada. Seguindo o exemplo de Joanesburgo, foi acrescentada uma quarta dimensão, composta por critérios e indicadores de governança corporativa. Além disso, as empresas serão avaliadas de acordo com uma quinta dimensão, formada por indicadores gerais e de natureza do produto.
Para analisar as dimensões econômico-financeira, social e ambiental foram criados quatro conjuntos de critérios: políticas (indicadores de comprometimento); gestão (planos, programas, metas e monitoramento); desempenho (indicadores de performance); e cumprimento legal (postura frente à legislação de concorrência, do consumidor, ambiental). A dimensão de governança corporativa avaliará as empresas de acordo com os critérios: propriedade, conselho de administração, gestão, auditoria e fiscalização, conduta e conflito de interesses.
A partir das cinco dimensões e seus critérios, um questionário está em elaboração e será enviado às 125 empresas cujas ações possuem maior liquidez na bolsa.
O processo de formulação do questionário foi participativo e aberto. Em uma série de workshops, especialistas das áreas ambiental, social e de governança corporativa, assim como as empresas e demais interessados, fizeram sugestões e críticas. Uma audiência pública no dia 10 de agosto fez parte do processo de consulta pública que se estende de 21 de julho a 22 de agosto.
As empresas devem responder o questionário até o fim de outubro. Com as respostas, o Cise avaliará as empresas em duas etapas. A primeira emprega a análise de agrupamento ou cluster. A análise de agrupamento é usada há 70 anos em diversas áreas do conhecimento e, no caso do ISE, trata-se de ferramenta adicional para auxiliar na seleção das empresas que farão parte do índice.
Ao contrário de uma simples média ponderada, esta técnica permite identificar grupos de empresas com características em comum. Em uma segunda etapa, serão analisadas as características de cada grupo. Aquele que apresentar excelência em todas as dimensões comporá o índice.
O ISE englobará até 40 empresas que se aproximam da excelência na gestão de sustentabilidade – companhias que almejam a perenidade ao administrar aspectos ambientais, sociais e de governança corporativa, sem deixar de criar valor para os acionistas.
Depois de formado o ISE, a Bovespa poderá solicitar esclarecimentos por amostragem ou se ocorrer fato relevante incompatível com as respostas apresentadas. Os questionários serão assinados pelos diretores de relações com investidores das empresas, responsáveis interna e externamente pela veracidade das informações. Caso seja confirmado o envio de informações falsas, o Cise excluirá a empresa do índice.
A metodologia do ISE foi desenvolvida com o objetivo de disseminar as melhores práticas no ambiente empresarial brasileiro. Isso explica a opção pela inclusão em vez da exclusão, pela excelência em todas as dimensões em vez de sua média e pelo debate transparente e aberto a todos os atores envolvidos. (Colaborou Mario Monzoni)