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Basf

Defensivos

Basf vende fábrica para funcionários
De São Paulo

Foto: Carol Carquejeiro/Valor
Conforme Reiners, a Basf gasta de 8% a 9% da receita mundial em pesquisas  

A multinacional alemã Basf decidiu vender sua unidade de defensivos agrícolas, localizada em Resende (RJ), para os cerca de 180 funcionários da própria fábrica. Incentivados pela múlti, esses funcionários constituíram uma empresa, a SoluCia, que deverá entrar em operação com a nova razão social no dia 1º de março.

Segundo Hans Reiners, presidente mundial da divisão de agroquímicos da Basf, a nova companhia prestará serviços ao grupo alemão no desenvolvimento de formulações para defensivos. Esse modelo de transação, no qual os funcionários assumem a empresa, conhecido como Employee Buy Out (EBO), é inédito na Basf. Reiners afirmou que não há outra operação de EBO em andamento no grupo, mas não descarta que esse tipo de transação possa ser novamente utilizada no futuro.

A expectativa é de que, neste primeiro ano de atividades, o faturamento da SoluCia atinja aproximadamente R$ 50 milhões. Nos próximos dois anos, a empresa prevê investir R$ 24 milhões para elevar sua capacidade produtiva.

O valor do negócio não foi divulgado. Ulrich Meier, que atuava como executivo da unidade de Resende, será o presidente da nova empresa. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico Social (BNDES) foi procurado para ser um dos parceiros, junto com os funcionários da empresas, que serão acionistas. A proposta está em análise no BNDES e tramita no Departamento de Economia Solidária, segundo a assessoria do banco.

Além de fornecer produtos para a Basf – cerca de 50% de sua produção – a SoluCia também estará livre para negociar contratos com outras empresas de defensivos, alimentos e grupos farmacêuticos.

Segundo Reiners, a Basf concentrará suas formulações de agroquímicos na unidade de Guaratinguetá (SP). A fábrica paulista foi escolhida por apresentar maior escala de produção e por também concentrar, num mesmo complexo, outras divisões de produtos químicos da multinacional alemã.

Com participação de cerca de 17% no mercado brasileiro de agroquímicos, com vendas de 1 bilhão de euros, a Basf está entre as três maiores empresas do setor no país em vendas. A unidade brasileira exporta 15% de sua produção de agroquímicos para América Latina e partes da Europa e da Ásia.

No Brasil, os investimentos para o ciclo 2004/05 estão estimados em US$ 5 milhões, dos quais US$ 1,1 milhão no aumento da capacidade de um princípio ativo, outros US$ 1,3 milhão na ampliação da capacidade da fábrica para a produção de um fungicida destinado ao combate do fungo da ferrugem asiática e o restante na ampliação da unidade de Guaratinguetá.

A companhia continua focando seus negócios em biotecnologia e em princípios ativos para a produção de defensivos. A divisão agrícola da Basf gasta por ano entre 8% e 9% de seu faturamento global em pesquisas. Em 2003, as vendas mundiais de agroquímicos da Basf atingiram 3,2 bilhões de euros. Os resultados globais do ano passado ainda não estão disponíveis e serão divulgados março próximo. (MS)

Camisetas

Do algodão à camiseta, rede de cooperativas reúne 700 pessoas
Sérgio Bueno De Porto Alegre

O trabalho começa cedo, às 6h30, e vai até às 18 horas na Cooperativa de Costureiras Unidas Venceremos, a Univens. Esse empreendimento cooperativo reúne 23 sócios (21 mulheres e dois homens), nasceu em 1996, ganhou corpo e hoje fatura R$ 40 mil por mês. Agora, começa a se preparar para vender no mercado externo.

“Nós criamos as peças, desenvolvemos, produzimos e administramos”, conta com orgulho a presidente da Univens, Nelsa Nespolo, 42 anos, que já trabalhou em indústrias de vestuário e da alimentação, de onde foi demitida em 1993 por participar de assembléia do sindicato dos empregados. Antes de participar da fundação da cooperativa, ela também costurava em casa para amigos e parentes.

Cerca de 90% do faturamento é obtido com a venda de camisetas, jalecos, calças, uniformes, além de sacolas para eventos, tudo sob encomenda de escolas, empresas, sindicatos e prefeituras. Há ainda uma linha de produtos com marca própria, estampados com ilustrações sobre Porto Alegre.

Este ano, a Univens passou a fazer parte de uma cadeia de cooperativas ligadas à produção e industrialização de algodão ecológico, cultivado sem uso de defensivos, atividade que ocupa mais de 700 pessoas no Ceará, São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e até na região amazônica.

A partir dessa articulação, montada em eventos como Fórum Social Mundial, Fórum Brasileiro da Economia Solidária e encontros da central de cooperativas Unisol, a Univens criou a grife Justa Trama, nome que associa trama social, justiça e trabalho com fios, explica Nelsa. Lançada em outubro, mais de 1.300 peças da marca – das 1.500 já produzidas – foram vendidas em encontros de entidades ligadas à economia solidária.

Agora, a Univens quer colocar a nova linha em lojas alternativas, ligadas a movimentos sociais ou focadas em produtos ecologicamente corretos, e também no varejo tradicional para alavancar as vendas. As exportações estão nos planos. Os primeiros contatos com potenciais clientes externos ocorreram nas feiras BioFach e Expo Sustentat, realizadas mês passado no Riocentro (RJ). “Fabricamos 10 mil peças por mês e podemos ajustar os produtos conforme a demanda”, explica a presidente.

De acordo com ela, o gargalo da Justa Trama é a limitação da capacidade de produção de algodão pelos 170 agricultores familiares ligados à Associação Educacional de Desenvolvimento Cultural, no interior do Ceará. Por enquanto, são produzidas de quatro a seis toneladas por ano, e a intenção é aumentar os volumes.

A “cadeia produtiva solidária do algodão ecológico”, como é chamada pelos integrantes, inclui ainda a Cooperativa Nova Esperança, de Nova Odessa (SP), responsável pela produção dos fios, a Textilcooper, de Santo André (SP), encarregada da tecelagem, e a Fio Nobre, empresa autogestionária de Itajaí (SC), que faz os cordões usados na confecção de algumas peças da Justa Trama. Há também a cooperativa Açaí, que reúne trabalhadores do Acre, Amapá, Amazonas, Roraima, Rondônia, Pará e Tocantins e fornece sementes e tinturas para decorar as roupas.

De acordo com Nelsa, todo o processo tem o apoio da Fundação Banco do Brasil, que abriu fundo de crédito rotativo de R$ 105 mil para financiar, por oito meses, a compra e venda de matérias-primas dentro da cadeia produtiva.

Ao mesmo tempo em que une todas as pontas do processo produtivo, a rede exige uma administração complexa. Parte do faturamento das cooperativas passou a ser destinado a um fundo compartilhado para futuros investimentos em pontos de estrangulamento, ou para aumentar o valor agregado dos produtos. O valor ainda é pequeno, mas a decisão sobre o uso dos aportes caberá a uma assembléia com todas as partes.

A organização interna da Univens também tem particularidades distintas de uma empresa tradicional. A diferença entre o menor rendimento (R$ 450) e o maior (R$ 800) não chega a duas vezes. Os ocupantes de cargos administrativos, como presidência, vendas ou tesouraria, não ganham nada a mais por isso e trabalham ao mesmo tempo na fabricação das roupas, onde a remuneração varia de acordo com a produção e o custo arbitrado para cada tarefa. “Trabalhamos de forma não competitiva, distribuindo o serviço de forma igual entre todos”, afirma Nelsa.

São duas formas de cálculo que determinam a divisão dos preços cobrados pelos serviços em cada etapa do processo produtivo e embutidos no custo final das peças. Nas áreas de corte e estampagem em serigrafia, a “arrecadação” mensal é somada e dividida em partes iguais entre os integrantes de cada equipe. No caso das costureiras, que realizam mais de uma tarefa (como confecção da “bainha” e “fechamento” das roupas), a produção é distribuída em lotes do mesmo tamanho, para garantir o equilíbrio das remunerações.

Cada associado contribui ainda com 10% da renda para um fundo da cooperativa. O dinheiro acumulado até o ano passado pagou um terreno por R$ 38 mil na zona norte de Porto Alegre, onde foi construída a sede da Univens, que até então funcionava em uma incubadora de empreendimentos populares. O prédio, cuja construção custou R$ 110 mil foi financiado pela ONG espanhola Acsur, sendo mais de 50% a fundo perdido.

A cooperativa foi fundada há quase uma década por um grupo de 35 mulheres entre 18 e 70 anos, donas-de-casa desempregadas, mães que não podiam trabalhar fora por causa dos filhos ou que não conseguiam emprego devido à idade. Um terço delas permanece na cooperativa, que hoje reúne trabalhadores de 22 a 61 anos.

Hiper Capitalismo

Trabalho
Nordeste reúne maior número de experiências, que são alternativas para desempregados e informais

Economia solidária multiplica-se no século XXI
Raquel Salgado De São Paulo

Foto: André Conti/Valor
Laércio Telles de Freitas (a direita), e Sérgio Luis da Silva, funcionário e cooperado da Uniwídia, que surgiu da recuperação de uma metalúrgica que faliu  

Um mês antes da virada para o ano 2000, o metalúrgico Marco Antonio Coelho, 38 anos, descobriu que começaria o ano novo desempregado. A fábrica onde havia trabalhado durante dez anos entrou em processo de falência e ficou lacrada pela Justiça por 55 dias. Coelho era um dos 90 funcionários que, em dezembro de 1999, permaneciam na folha de pagamento da Cervin. A empresa produzia, na época, entre 100 e 120 quilos de metal duro em Mauá, região metropolitana de São Paulo. Quase nada, se comparado ao auge da produção, em meados da década de 90, quando cerca de 2,5 toneladas eram fabricadas todo mês.

Cinco anos depois, Coelho é metrologista da metalúrgica Uniwídia, cooperativa que recuperou a Cervin. Há um ano e meio, ele ainda trabalhava como retificador, função que exercia na fábrica falida. O bom desempenho da empresa e a formação técnica na área garantiram a ele uma promoção e salário 12% maior, de R$ 2,3 mil. A Uniwídia tem 32 cooperados e 9 funcionários contratados com carteira assinada. A produção mensal está entre 700 e 800 toneladas de metal duro, também chamada de vídia, combinação de cobalto com carboneto de tungstênio.

Coelho trabalha em uma máquina alemã que verifica se os pesos e medidas das peças de metal duro estão corretos. O equipamento foi adquirido pela cooperativa há um ano e meio e custou R$ 70 mil. A compra não foi simples. Sem patrimônio para dar como garantia, mesmo com faturamento mensal de R$ 400 mil, a Uniwídia, assim como a maioria das cooperativas, enfrenta problemas para se financiar. Recorreu ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC para conseguir o empréstimo.

A economia solidária ganhou força no país nos últimos anos. De 2000 para cá, o número de empreendimentos solidários mais do que dobrou. Nesses seis anos surgiram 5.772 empreendimentos, mais do que todas as iniciativas desse tipo vistas no país até o final da década de 90, quando chegavam a 5.224. Hoje, são 13.455 identificados em levantamento do Ministério do Trabalho e Emprego.

O crescimento de atividades ligadas à reciclagem de lixo e o maior número de assentamentos rurais nesse período são algumas das explicações para o avanço das cooperativas. O movimento sindical e as organizações não-governamentais também tiveram participação na evolução da economia solidária, dando suporte e mostrando alternativas de trabalho aos desempregados.

Para o economista Paul Singer, secretário de Economia Solidária, além da introdução de uma cultura em busca de soluções para o desemprego, o sucesso de algumas cooperativas criadas no início da década de 90 serviu de estímulo para novos empreendimentos. “As experiências vitoriosas jogaram luz sobre a economia solidária”.

As cooperativas e associações despontaram no início década de 1990, durante o governo Collor, e continuaram a surgir mesmo depois da crise enfrentada pelas empresas com a abertura da economia brasileira ao mercado internacional. “Se em um primeiro momento muitas dessas iniciativas estavam ligadas à recuperação de uma companhia falida, nos anos mais recentes a busca por alternativas de geração de renda e emprego serviu de incentivo para os trabalhadores se associarem”, avalia Huberlan Rodrigues, advogado e pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Além da dificuldade de obtenção de crédito, as cooperativas e associações lutam por modificações na lei das cooperativas, de 1971. Rodrigues comenta que a lei 5764 surgiu por conta de demandas econômicas da década de 70 e foi redigida pensando em um modelo cooperativista no qual os produtores pudessem se associar de forma a ter estrutura para armazenar seus produtos. “Ela não tem instrumentos para o funcionamento das atividades desenvolvidas pelas cooperativas de trabalho e serviços que existem hoje em dia”, diz.

José Ricardo Tauile, estudioso de economia solidária e pesquisador da UFRJ, diz que o Estado ainda não está preparado para esse modelo de gestão. “As políticas públicas voltadas a essas iniciativas são muito fragmentadas”, avalia. “É preciso facilitar o acesso ao crédito, pois elas têm dificuldades para comprovar histórico contábil e dar algo como garantia do empréstimo, uma vez que não possuem qualquer patrimônio.”

Para evitar arcar com o ônus de ser dono de seu próprio negócio o metalúrgico Laércio Telles de Freitas, 59 anos, preferiu não entrar na cooperativa criada após a falência da Cervin. “Fiquei com receio de que não desse certo. Quando se está numa cooperativa, você fica responsável por tudo: pelo sucesso e pelo fracasso”. Mas, poucos meses depois, com dificuldades em arrumar outro emprego, pela idade já avançada, ele retornou à antiga fábrica e como funcionário.

Também o medo de não arranjar outro emprego e a vontade de tomar as rédeas da empresa para a qual trabalha desde 1997 fizeram com que Sérgio Luis da Silva, 41 anos, virasse um cooperado da Uniwídia. “Não faço só meu trabalho do dia-a-dia. Precisamos pensar na gestão da empresa, em economizar, em arrumar clientes”, diz. Sérgio ganha R$ 1,5 mil por mês. Com esse dinheiro consegue sustentar a esposa e dois filhos. “Não quero outro emprego não”.

Em busca de uma política pública de incentivo a esse tipo de empreendimento, o governo Lula criou a Secretaria Nacional de Economia Solidária (Senaes) para estimular essas ações. Segundo Singer, secretário da pasta, é possível que até o final do ano o BNDES aprove a criação de um fundo especial para a recuperação de empresas pelos ex-funcionários. “Os juros devem ser os mesmos já aplicados pelo BNDES, mas o programa vai atender às cooperativas que queiram crédito para comprar a massa falida da empresa”.

Pelos dados do Ministério do Trabalho, a maioria dos empreendimentos solidários, 55%, está organizada em forma de associação e concentrada no setor agrícola (40%). As iniciativas ligadas à produção e serviços também se destacam e representam 26,6% e 10,6% do total. O Nordeste é a região do país que mais conta com esse tipo de empresa: 45,3% do total delas estão lá. A baixa renda da população e o alto índice de desemprego justificam essa concentração. O Sul vem logo atrás, com 23,6% dos empreendimentos. Lá estavam a maioria das associações antes dos anos 90, resultado da cultura dos imigrantes europeus, especialmente alemães e italianos.

Mas nem tudo é uma maravilha. Segundo Tauile, os empreendimentos solidários costumam passar por dois tipos de crise. Uma de curto prazo, que diz respeito à sobrevivência imediata: como pagar as contas no final do mês? Quando esse primeiro desafio é superado, aparece outro: onde essa empresa quer chegar? “É aí que entra a necessidade de uma política pública de Estado, e não de governo, que olhe para a economia solidária”. Redução de tributos e linhas de crédito especiais são algumas das reivindicações dos cooperados.

“Pagamos INSS duas vezes aqui. A cooperativa paga 20% sobre a folha de pagamento e o cooperado contribui com mais 11%”, reclama Aziel Pereira da Silva, ex-funcionário da Cervin e atualmente presidente da Uniwídia. E não há como escapar desses tributos.

Elias Domingos Parente, de 56 anos, que o diga. Trabalhando na Cooperlimpa, cooperativa de reciclagem de lixo de Diadema, o ex-metalúrgico caiu de um caminhão lotado de garrafas pet e fraturou os dois punhos. Ficou dois anos de molho. Como nenhum dos 18 cooperados contribuía para o INSS, resolveram tirar do próprio bolso o salário de Parente, que continuou a receber durante todo esse tempo.

“Foi um sufoco, mas não podíamos deixá-lo na mão”, conta o presidente da Cooperlimpa, José Lacerda. Os cooperados aprenderam a lição. Há cerca de dois anos e meio contribuem mensalmente como autônomos para o INSS.

Hoje, a cooperativa vende 25 toneladas de lixo reciclável por mês. Com isso, a retirada média dos trabalhadores está entre 1 e 1,5 salário mínimo. “Já chegamos a vender 40 toneladas por mês, mas sofremos com a concorrência”, diz. São os catadores, que circulam com carroças por Diadema e recolhem boa parte do lixo reciclável.

“O desempenho das associações e cooperativas é muito irregular. Há aquelas que funcionam por pura teimosia, e onde os trabalhadores ganham bem menos do que o mercado pagaria”, analisa Tauile. É o caso da Cooperlimpa, que tenta entrar no ramo de reciclagem de óleo de cozinha para servir como biocombustível. Caso a iniciativa dê certo, os salários serão engordados em pelo menos 20%.

Parente não reclama do trabalho. “Se não estivesse aqui, estaria desempregado. Tenho mais de 50 anos, o que dificulta muito.” Com a ajuda de três filhos, vive com a esposa na casa que acabou de construir com o salário da cooperativa.