Teias de negócios: redes sociais conectam profissionais e empresas
quinta-feira, dezembro 7th, 2006A experiência mostra que sim, desde que com os devidos cuidados. As redes de relacionamento corporativas podem ter três principais aplicações dentro de uma companhia, segundo Daniel Domeneghetti, sócio-fundador da E-Consulting e CEO da DOM Strategy Partners.
“Da porta da empresa para dentro, podem servir como ferramentas de comunicação, substituindo as intranets, murais ou jornais internos”, explica. “Ainda dentro da companhia, a rede social pode servir para aproximar os funcionários por afinidades, de acordo com seus hobbies pessoais, criando um senso de companheirismo e melhorando o relacionamento dentro da companhia”, acrescenta.
“Há ainda um terceiro emprego, que considero o mais interessante, que consiste em usar a rede social como um catalisador de projetos, uma ferramenta de colaboração de fato, onde a tecnologia é usada para gerar conhecimento coletivo”, aponta o executivo.
Para Domeneghetti, dentro do ambiente corporativo, os riscos de utilizar uma rede social são restritos, já que a ferramenta estará sujeita ao regimento interno de segurança da companhia. “Claro que isso pode ser levado para fora, mas é o mesmo risco de se ter um mural interno ou uma newsletter”, defende o analista.
Ponto de encontro
É no âmbito do relacionamento entre empresas, no entanto, que a rede social pode atingir o máximo do seu potencial, funcionando como ponto de encontro para estabelecimento de acordos e parcerias, colaboração de agentes de cadeias produtivas e até para negociações de compra e venda.
Um exemplo prático deste emprego da tecnologia é a plataforma Peabirus, desenvolvida pela Radium Systems. A rede social, cujo acesso é permitido somente a convidados - como no Orkut -, funciona como um ambiente de relacionamento para os arranjos produtivos locais - como, a cadeia produtiva do café no Brasil, a indústria de calçados infantis de Birigui (SP) e o pólo tecnológico de São Caetano do Sul (SP).
Dentro do modelo de negócio, a Radium System provê a base tecnológica para o marketplace e o suporte à governança das redes, que se dividem em sub-redes e comunidades. Cada rede, sub-rede e comunidade tem um mediador, que é remunerado conforme o desempenho (medido pela audiência) do seu grupo, com parte da verba proveniente das empresas que pagam para entrar na plataforma como comunidade de negócios - potenciais fornecedores aos agentes destas cadeias produtivas.
Além de não ter custo nenhum para entrar na plataforma, os agentes do arranjo - que vão desde companhias produtoras até entidades setoriais, passando por universidades e institutos de pesquisa - têm como vantagem a facilidade de colaborar em projetos comuns e ganham ainda um poder de negociação maior com os fornecedores. “A rede gerida pela Radium procura organizar as lideranças locais que fazem parte da cadeia produtiva”, explica Rodrigo Mesquita, diretor da Radium.
Do outro lado, os fornecedores, que já são mais de 100 - incluindo nomes como a fabricante de chips AMD e o Banco ABN AMRO Real -, lucram com a possibilidade de atingir potenciais clientes que estão dispersos pelo País e exigiriam um esforço de capilaridade muito grande para serem atendidos.
“Para uma empresa de ERP, por exemplo, o custo de deslocar um representante até Birigui, no interior de São Paulo, para atender os calçadistas da região é drasticamente reduzido com a plataforma online”, exemplifica Mesquita.
Na avaliação do diretor da Radium, a tendência de que os relacionamentos migrem para a web é inexorável. “A sociedade está cada vez mais fragmentada. A única forma de organização é pelas redes”, afirma Mesquita.
Lançado oficialmente em agosto, o Peabirus conta com quase 1,4 mil usuários e sete redes implementadas. “O objetivo é terminar o ano com mais sete redes e 5 mil usuários”, conta o executivo. Já em 2007, a plataforma deve reunir 100 mil participantes, segundo Mesquita.
Círculo de confiança
Marcos Sêmola, consultor de gestão de riscos da Atos Origin no Reino Unido, compartilha da visão de Mesquita sobre a importância das redes sociais. “Não se trabalha mais nos limites da sua empresa, da sua cidade ou de seu país. As fronteiras se quebraram e trabalhar com resultado e alta performance requer grande eficiência e abrangência de networking, ou contatos”, opina o consultor.
Sêmola é usuário de uma outra modalidade de rede social - as redes de contatos profissionais, cujo principal expoente é LinkedIn. Com mais de 7 milhões de integrantes, a rede também se baseia em relações de confiança. Para entrar, é preciso ser convidado por um usuário. Cada usuário pode visualizar sua própria lista de contatos e a lista de contatos dos seus contatos.
“O que o sistema prega é que se eu o conheço muito bem e encontro em sua lista de confiança um profissional que me interessa, poderei confiar nele por herança e assim reduzir meus riscos de contratar a pessoas errada. Mas, claro, se os critérios de inclusão de um novo contato em sua rede forem falhos, você pode estar quebrando a confiança do sistema e gerando impactos em cascata”, aponta o consultor.
Como membro da rede e especialista em riscos, Sêmola aponta outros cuidados que devem ser tomados para otimizar o uso da ferramenta. “O LinkedIn não deve ser usado de olhos vendados. Escolha bem e proteja a sua senha, para evitar quebra de confidencialidade. Adote critérios legítimos de seleção de novos membros em sua rede. Não divulgue informações pessoais e profissionais sensíveis, lembrando que o ambiente é acessível a qualquer um, em qualquer lugar do mundo”, aponta.
Use com moderação
“Além disso, como estamos falando de um sistema e seu computador é a ferramenta de acesso, deve-se mantê-lo seguro. Por isso, atualizar o sistema regularmente, o antivírus, detector de intrusos, e especialmente não executar programas ou acessar links suspeitos, podem evitar dores de cabeça”, acrescenta.
Mais pragmático em relação ao uso de ferramentas como o LinkedIn, Domeneghetti acredita que elas são mais úteis a profissionais em início de carreira. “Para quem ainda não tem uma rede de contatos, é um serviço, uma forma de inserção no mercado. Mas a partir de certo estágio na carreira, passa a ser um desserviço, pois o networking é um patrimônio do executivo, que vai ficar exposto a todos”, acredita.
Para Domeneghetti, o sucesso das redes sociais está atrelado ao desenvolvimento e aplicação do conceito de responsabilidade digital, que consiste em práticas por parte das empresas provedoras de acesso, dos usuários e dos operadores de serviços online para que as transações na web sejam mais confiáveis.
“Por enquanto, há uma percepção para as empresas de que elas correm riscos ao se posicionar em redes, se relacionando com parceiros e clientes dentro de um marketplace aberto, mesmo que não corram”, justifica. “Conceitualmente todo mundo topa, mas não vai existir uma grande rede de seres humanos amigos. Quando houver uma percepção de redução de custos e de ganho de agilidade com a prática, aliada a uma percepção de segurança, aí a tecnologia pode ganhar o mundo corporativo de fato”, opina.
O conselho final de Sêmola para explorar as redes de relacionamento - sejam pessoais ou corporativas - é: “use com moderação”.