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Empresas virtuais

Um país pode ter uma política de investimentos diversificados, embora concentrando recursos apenas em atividades nas quais tenha as melhores condições de competitividade. Esse país entrará e sairá facilmente de outros investimentos, nos quais não seja competitivo, que serão apenas financeiros, não físicos. E administrará seu perfil de risco sem expor-se a situações de dano incontornável, como no caso de insucesso do investimento numa indústria não competitiva. Tudo isso seria possível com a aplicação do conceito de swap de risco-país, desenvolvido por Robert Merton, Prêmio Nobel de Economia de 1997, com base naquilo que já se faz habitualmente nos mercados financeiros por meio do intercâmbio de posições de investimento em operações destinadas a reduzir os “custos de transação”. Merton aposta que essa prática deverá tornar-se comum em menos tempo do que se possa imaginar, como disse ao Valor.
“O swap não é um procedimento invasivo. Não requer nenhuma grande alteração nas estruturas de emprego ou industriais, nem no sistema financeiro. Além disso, a política é reversível. Se você fizer um grande swap hoje para modificar os padrões de risco e, daqui a dois anos, decidir que não era isso que queria fazer, tudo bem. Mas se você construir fisicamente uma indústria, não há como voltar atrás”, explicou.
A operação de swap tem sido usada por bancos e empresas de investimento em vários países, para minimizar a exposição a diferentes tipos de risco, como os do câmbio, das taxas de juros e do mercado de ações. Mas o sistema de swap de risco-país seria aplicável, por exemplo, ao caso de um país que seja competitivo na produção de automóveis e tenha uma indústria inexpressiva de componentes eletrônicos.
Para reduzir problemas decorrentes do fato de ser dependente de um só setor da economia, esse país tenderia a investir pesadamente no setor em que não é competitivo. Com o swap, porém, poderá fazer um acordo de troca de riscos com um país competitivo em eletrônica, por exemplo, com base em determinado valor, de forma que cada qual pagaria retornos sobre um portfólio internacional de ativos do respectivo setor. Assim, a exposição ao risco do primeiro país ficaria reduzida à diferença de retornos do portfólio do setor automotivo (o seu) e do setor eletrônico.
Apesar de o Brasil ser um país com economia diversificada e recursos naturais, Merton avalia que o swap encontraria campo de aplicação também aqui, por ser um instrumento para promover o crescimento econômico a longo prazo. “O compartilhamento eficaz de riscos e a existência de um sistema financeiro eficaz podem ser elementos importantes para o crescimento e o desenvolvimento econômico”, afirma Merton.
Aos 61 anos, Merton é professor da Universidade de Harvard. Ganhou o Nobel pela criação de um “novo método para determinar o valor dos derivativos”. Derivativos são contratos ou títulos cujo valor está relacionado aos movimentos de preço de um outro título, instrumento ou índice. Pode ser utilizado como instrumento de hedge, simplesmente, mas também é conhecido pelo uso amplo em operações que visam apenas a especulação. Para a Academia Sueca de Ciências, a fórmula desenvolvida por Merton “propiciou novos tipos de instrumentos financeiros e facilitou o gerenciamento de riscos na sociedade”.
O objetivo de Merton, agora, é dar prosseguimento à difusão de sua nova tese e à aplicação prática do conceito de risco-país. Para isso, fundou a Integrated Finance Limited, dedicada à consultoria de empresas e países interessados nessas operações.
Embora seja um economista respeitado, Merton não traz apenas idéias bem-sucedidas em seu currículo. Foi um dos fundadores da empresa de hedge-fund Long-Term Capital Management, que quebrou em 1998, apenas um ano após o professor receber o Nobel. O colapso do fundo quase provocou um cataclisma financeiro global em plena crise do Sudeste Asiático.

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao Valor.

Valor: O senhor tem defendido que uma saída para oferecer menos riscos a uma nação, que hoje precisa diversificar sua produção industrial para ser competitiva, é recorrer à operação que denomina de swap de risco-país. Como esse mecanismo poderia contrabalançar o perigo de perdas?
Robert Merton: A idéia central é reduzir a troca entre a busca da vantagem comparativa e a diversificação eficaz dos riscos, que tipicamente leva um país a investir em muitas áreas diferentes, não relacionadas. Esses dois fatores são conflitantes. Sugiro um canal para compartilhar riscos de modo mais eficaz em escala internacional. O problema da diversificação industrial é que, para inaugurar um novo setor num país é preciso investir, contratar funcionários, treiná-los, abrir firmas e protegê-las até que comecem a ter autonomia e, mesmo assim, é quase certo que este país não será tão competitivo quanto outros mais avançados naquela área. Para abrir este novo setor também será preciso mudar o modo como se fazem as coisas naquele determinado país. É preciso que os trabalhadores se qualifiquem para os novos postos, para desempenhar funções diferentes, ao passo que, com a aplicação do swap de risco, o país se livra do alto risco desses investimentos. As pessoas vão para o trabalho hoje exatamente como foram ontem. Nada muda fisicamente na administração dos negócios, nos empregos, nos padrões de comportamento, na estrutura industrial.
Valor: A idéia é que um país busque sua vantagem comparativa na produção em relação ao mercado internacional e se faça o swap num portfólio internacional do setor?
Merton: Isso é o que recomendo. Alguns de meus colegas recomendam o mesmo tipo de procedimento, principalmente em países onde é predominante a produção de certas mercadorias, como o cobre no Chile, o petróleo no México. Não é o caso do Brasil, que possui uma economia muito mais diversificada. É preciso arrecadar o valor capitalizado daquilo que se tem, não os fluxos anuais. Não é apenas o PIB alcançado em determinado ano ou a receita de determinado ano que se torna um fator de risco. Trata-se do valor capitalizado, a receita futura de um setor que gera mais risco. Se você possui ações de uma companhia, não está exposto apenas aos ganhos ou dividendos em determinado ano, mas também aos de anos seguintes, isto é, ao valor capitalizado.
Valor: Mesmo um país como o Brasil, com recursos naturais e recursos de produção, poderia se beneficiar do swap de risco país?
Merton: Claro que sim. Obviamente, países menores, com menos vantagens comparativas, provavelmente se beneficiariam mais. Mas em todos esses casos estamos falando de desenvolvimento econômico de longo prazo. O compartilhamento eficaz de riscos e a existência de um sistema financeiro eficaz podem ser elementos importantes para o crescimento e o desenvolvimento econômico. O swap não é um procedimento invasivo; não requer nenhuma grande alteração nas estruturas de emprego ou industriais, nem no sistema financeiro. Além disso, a política é reversível. Se você fizer um grande swap hoje para modificar os padrões de risco e, daqui a dois anos, decidir que não era isso que queria fazer, tudo bem. Mas se construiu uma indústria fisicamente, não há como voltar atrás.
Valor: O senhor vê conexões com este mecanismo de operação e o usado nas operações de crédito de carbono?
Merton: Em alguns aspectos, se equivalem. Os contratos de crédito de carbono são para trocar direitos ou oportunidades, que podem reduzir alguns riscos. O swap de risco país é uma aplicação um pouco diferente. A maioria dos países não tem risco diversificado. Grande parte possui relativamente poucos setores nos quais apresenta vantagem comparativa. O ideal seria que, com relação à produção e ao desenvolvimento, os países se concentrassem em sua vantagem comparativa. Digamos que você inaugura uma indústria automobilística e, cinco anos mais tarde, quando tem cem mil pessoas trabalhando, decide que não foi uma boa idéia; não há como voltar atrás. Mas no caso do swap você pode voltar atrás. É só fazer um contrato de “off-setting” – quase sem nenhum impacto sobre a vida no país. No entanto, em se tratando de exposição a riscos, o ideal seria que esses países pudessem diversificá-los globalmente. E a melhor política em termos de diversificação é fazer negócios no mundo inteiro.
Valor: Aqueles que se orientam pela engenharia econômica se concentram nos aspectos tecnológicos. Acreditam que tecnologia por si só pudesse produzir ganhos econômicos reais para determinado país ou região. Eles estão certos?

“O problema da diversificação industrial é que para inaugurar um novo setor é preciso investir, contratar, treinar e proteger

Merton: É claro que a tecnologia é muito importante – se não há tecnologia, não há base para crescimento. No entanto, você pode ter toda a tecnologia, mas se ela não for desenvolvida ou transformada em realidade econômica, não terá vantagem alguma. E, ao que parece, essa transformação, para aqueles que a estudaram historicamente, é altamente influenciada pela capacidade não só de obter capital, mas também de gerenciar e distribuir riscos. Não se pode fazer uma comparação direta, mas é algo parecido com a discussão sobre como lidar com a fome no mundo. O problema não é a inexistência de alimento em quantidade suficiente, e sim a distribuição: fazer com que o alimento chegue até as pessoas que precisam dele. Esse sistema de distribuição é intangível e a comparação que faço é a seguinte: existe muita tecnologia por aí, mas, a menos que se descubra um meio de implementá-la efetivamente na economia, não haverá crescimento. Se você fala com um ortopedista, ele se concentra em seus ossos; se você fala com um cardiologista, ele se concentra em seu coração; você está falando com um especialista em finanças, que se concentra no sistema financeiro.
Valor: Mas os países têm questões de soberania. Se os estrangeiros detêm uma grande parcela das ações de uma companhia, não podem surgir conflitos com relação à política governamental?
Merton: Realmente, podem surgir questões políticas, como quando se ouve dizer que o país vendeu seus melhores bens a um preço muito baixo. Também acontece de investidores estrangeiros temerem expropriações, ou a imposição de controles de capital. Existem aspectos positivos e riscos para ambas as partes.
Valor: Que importância teria para a eficácia de um swap de risco-país o fato de investidores locais controlarem um setor competitivo
Merton: É como o mercado mundial de chips, de cobre ou qualquer outro. Os investidores locais ainda detêm controle sobre o setor, as ações ainda são negociadas em mercados locais, se houver um mercado de ações. Assim, evita-se parte do risco de vender as jóias da coroa do país.
Valor: A melhor estratégia seria começar aplicando swaps aos fundos de pensão e, em seguida, adotar medidas de redução de riscos?
Merton: Essa pode ser uma maneira natural de implementar o swap, começando pelos fundos de pensão. Gostaria de ser mais preciso e dizer que é assim que se deve fazer, mas estou fornecendo um conceito. Os detalhes da implementação devem ser adaptados para atender ao conjunto de necessidades, o ambiente institucional, a cultura de cada país etc. Não se trata de importar um modelo, porque se trata de um conceito, o conceito de transferir grandes riscos e permitir que o país em questão trabalhe com suas vantagens comparativas, concentrando investimentos em uma variedade relativamente pequena de áreas.
Valor: De que maneira um sistema financeiro ideal favoreceria o progresso tecnológico?
Merton: A natureza das coisas é a adaptação para criar conjuntos de instituições e mercados. Uso o termo instituição no sentido amplo, incluindo regulamentos, impostos etc. É preciso tirar proveito das tecnologias financeiras comprovadamente eficazes e das novas tecnologias físicas – telecomunicações, computação e assim por diante – para criar o maior número possível de canais para investimento e compartilhamento de riscos, para tentar incentivar o empreendedorismo, não necessariamente o empreendedorismo individual, mas também em ambientes empresariais de grande porte. É preciso criar um sistema de distribuição que permita de fato a transformação do progresso tecnológico em realidade econômica, em uma escala que possa ter um impacto significativo sobre um país ou região.
Valor: É por isso que o senhor diz que as instituições são muito importantes para esse tipo de negócio? Elas representam uma garantia aos investidores estrangeiros?
Merton: As vantagens de se utilizar swap em vez de empréstimos, investimento direto com recursos domésticos ou investimento direto estrangeiro é que esta transação financeira, por natureza, minimiza bastante o risco de expropriação, porque não há um montante principal a ser expropriado. Em outras palavras, um swap de US$ 1 bilhão em risco de chips de computador é diferente de um investimento estrangeiro de US$ 1 bilhão nesse setor ou de um empréstimo de US$ 1 bilhão. Se houver medidas de controle de capital ou simplesmente uma aquisição, US$ 1 bilhão será a quantia expropriada, mas, no caso de um swap, não há um montante principal, apenas uma troca de retornos. Logo, a quantia passível de expropriação é muito menor.
Valor: O senhor acha que será mais fácil para os mercados emergentes a aplicação deste mecanismo de swap de risco-país?
Merton: Bem, não sou macroeconomista, mas quantas vezes você já ouviu falar de receitas segundo as quais políticas fiscais e monetárias, estabilizações, moedas etc. são importantes para o crescimento e o desenvolvimento econômico? Esses fatores obviamente são importantes, mas no curto prazo.
Valor: Essa é uma abordagem do FMI: ser muito cuidadoso com a política monetária. No Brasil segue-se essa receita.
Merton: Sim, mas não estou criticando essas receitas em particular. Só estou dizendo que a ênfase da discussão deve ser outra. Talvez seja adequado dedicar recursos para analisar a estrutura financeira local e encontrar melhores meios de distribuição de riscos, melhores canais de investimento e assim por diante. Não se trata de escolher entre uma ou outra receita. Só estou afirmando que, em geral, a ênfase é colocada nesses elementos que citei. Pessoas como o professor Douglass North [professor da Universidade de Wahington e ganhador do Nobel de 1993] publicaram várias obras indicando que um sistema financeiro em bom funcionamento é um ingrediente importante para incentivar o crescimento econômico de longo prazo, principalmente quando esse sistema tira proveito do progresso tecnológico.
Valor: O desenvolvimento de um sistema financeiro mais eficaz é a solução definitiva para o desenvolvimento e o crescimento econômico?
Merton: Só digo que é um fator importante. Existem muitas tecnologias financeiras. Estou falando de tecnologias comprovadas, não experimentais. Elas podem gerar benefícios, estou concentrado nesses benefícios.
(Robinson Borges)

Brasil Brokers capta 13 vezes a receita

Nem passado glorioso, nem projeto detalhado. Muito menos, nome conhecido na praça. Mesmo sem se encaixar no perfil das tipicamente mais atrativas, a recém-constituída Brasil Brokers conseguiu um feito no mercado de aberturas de capital do pós-crise. A companhia encontrou espaço para fazer uma colocação secundária de ações do tamanho da primária. Foram R$ 608 milhões no total: metade com papéis dos acionistas e o restante, com novas ações, para capitalizar a empresa.
Neste ano, excluindo a Bovespa Holding, só Cremer, Wilson Sons, Log-in e Tegma conseguiram um mix parecido na oferta, entre primária e secundária. É o quinto caso num universo de 60 estréias na bolsa. E o primeiro desde que o discurso de seletividade do investidor começou a ganhar força.
O inusitado da Brasil Brokers é ainda maior considerando que se trata de uma companhia do setor imobiliário e que a colocação foi destinada a investidores “qualificados” – que possuem familiaridade com o universo financeiro e aplicações de, no mínimo, R$ 300 mil. Quando foi apresentada ao mercado, há meses circulavam comentários de que não haveria mais espaço para operações do setor de construção, dada a grande quantidade de ofertas ocorridas no primeiro semestre. Com a emissão primária, a Brasil Brokers colocou R$ 304 milhões em seu caixa: valor quase 13 vezes superior ao faturamento líquido do primeiro semestre, de R$ 23,5 milhões. Essa posição pode chegar a R$ 425,6 milhões, ou 18 vezes a receita dos seis primeiros meses do ano, caso a operação alcance os R$ 821 milhões potenciais com o lote suplementar de papéis, que pode ser vendido até fim de novembro.
A companhia é resultado da união de 16 imobiliárias. A idéia do negócio nasceu em fevereiro e todas as aquisições ocorreram neste segundo semestre do ano. Algumas delas só se concretizaram depois de pedido o registro da oferta de ações à Comissão de Valores Mobiliários (CVM). No prospecto preliminar, só foram apresentadas 11 subsidiárias.
Pelo preço das ações na oferta inicial, os investidores atribuíram valor de R$ 1,6 bilhão à Brasil Brokers. O montante é mais do que o dobro dos R$ 639 milhões encontrados pela Z3M Planejamento, na avaliação solicitada pelo fundo Gulf I de Investimentos em Participações, sócio controlador até a oferta.
Segundo o prospecto da operação, a Brasil Brokers tem 3 mil corretores, em 363 pontos de venda, considerando as 16 subsidiárias. No momento da oferta de ações, tinha 33,6 mil imóveis prontos para revenda. Na carteira, considerando os projetos ainda no papel, são 190 mil unidades. O valor geral de vendas (VGV) potencial deles é de R$ 33,7 bilhões, sendo que o equivalente a R$ 26,9 bilhões ficará pronto para comercialização até o fim de 2009.
O negócio da empresa é, basicamente, corretagem imobiliária. A idéia de constituição da companhia teve como objetivo criar uma companhia de atuação nacional. Dada a juventude da iniciativa, 10% do que for arrecadado na oferta terá que ser destinado para efetivamente reunir as empresas compradas. Os recursos serão usados para aquisição e implantação de sistemas de tecnologia da informação e treinamento.
A maior parte da captação, 80% do total, será direcionada para novas aquisições. Na prática, significa que o projeto e a própria a companhia ainda estão ganhando forma.
Na oferta secundária, além dos sócios herdados da união das 16 imobiliárias, o fundo de investimento e sócio majoritário Gulf I foi o que mais arrecadou, junto da PDG Realty. A carteira da Gulfinvest obteve R$ 152 milhões na venda de ações, podendo chegar a R$ 202,6 milhões.
É no Gulf I que está o idealizador da empresa Ney Prado Júnior (45% do patrimônio). O fundo teve sua fatia na Brasil Brokers reduzida de 48% para 29% – podendo cair até 24%.
A PDG têm 25% da carteira desse fundo e embolsou R$ 43 milhões da oferta secundária. O valor pode subir para R$ 54 milhões, no caso de venda do lote suplementar. A companhia ajudou a compor a Brasil Brokers com a imobiliária Avance. Embora a unidade contribua com menos de 7% do VGV a ser lançado, a PDG ficou com 14% do montante arrecadado pelos acionistas.
O discurso de seletividade ganhou corpo ao longo deste ano, por conta do grande volume de operações, e intensificou-se após a crise nos mercados financeiros internacionais. Mais crítico, além de preferir emissões primárias, nas quais o dinheiro vai para o crescimento da companhia, às secundárias, em que os recursos vão direto para o bolso dos acionistas, o mercado passou a exigir também bons projetos para justificar a captação. Ao longo de todo este ano foram levantados R$ 29,5 bilhões em ofertas primárias nas aberturas de capital e, apenas R$ 12,2 bilhões em secundárias.
Poucos dias antes do pico da crise, feito semelhante foi o da Invest Tur, que constituía-se, exclusivamente, de um projeto no papel. Captou R$ 945 milhões na Bovespa. O objetivo é explorar projetos imobiliários voltados ao turismo no Nordeste. A empresa vendeu a idéia pela experiência dos sócios, uma vez que foram os criadores do Txai Itacaré (BA) – Joaquim Ferraz, José Romeu Ferraz Neto e Marcio Botana Moraes, donos da GR Capital Consultoria. Após a capitalização, a Invest Tur comprou o resort baiano Txai da família de um dos sócios originais, por R$ 15,5 milhões. Os fundadores recebem ainda, por meio da GR Capital, cerca de R$ 2,5 milhões a cada três meses, por serviços de consultoria prestados à empresa.

Tudo se cria, tudo se transforma

Idéias que batem de frente com modos estabelecidos de pensar ou fazer são geralmente vistas com ceticismo. Foi assim com o Linux, sistema operacional criado no princípio dos anos 1990 por Linus Benedict Torvalds. Hoje, são ícones, ele próprio e sua criatura, da indústria do software livre, que tem a IBM, por exemplo, entre seus mais ilustres associados. E o sistema Windows, da Microsoft, ganhou um concorrente respeitável. “The Wealth of Networks”, de Yochai Benkler, professor de direito em Yale, é um livro inspirado em experiências como a de Torvalds, possibilitadas pela tecnologia que se mistura com filosofia nos princípios que regem a criação e o funcionamento de redes de relacionamento, via internet, para a produção cooperativa de um bem informacional ou cultural. O livro, agora lançado pela Yale University Press, pode ser comprado na Amazon ou na Powell´s (US$ 40), mas também está disponível na internet, para download gratuito, e inteiramente aberto a colaborações ( http:// www.benkler.org/wealth-of- net works/index.php/Main-Page ).
É a “peer production”, aquela que se faz nos limites de uma comunidade de pessoas que se identificam no interesse por um assunto – e que, como diz Benkler no livro, “constitui um duro desafio para o pensamento convencional a respeito da economia da produção de informação”. Mas não se trata de excepcionalidades, coisas efêmeras, afirma o autor. “É um erro pensar que temos somente duas formas básicas de transações livres – aquelas dos mercados e suas relações de contrato e propriedade, e empresas hierarquicamente organizadas. Temos três, e a terceira é o compartilhamento e a troca de caráter social.”
Benkler argumenta que, se o domínio da propriedade intelectual, das marcas registradas e das patentes não parou de se expandir, nos últimos poucos anos também ganharam ímpeto forças sociais que agem em sentido contrário.
A visão de Benkler não é de todo utópica. Que o digam Torvalds e os milhares de participantes da comunidade mundial que ele criou. Ou a IBM, que aderiu ao Linux e o instalou em seus servidores, para fazer frente ao Windows da Microsoft. São fatos. Benkler não tem dúvida: o futuro da economia da informação está nas redes, lugares virtuais em que já se comprova ser possível mudar os modos como se cria e troca informação, conhecimento e cultura. Idéias para um “novo capitalismo”?

Crescer com sócios

A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) encerrou 2006 com alta acumulada de 32,9%, o que mais uma vez a deixou na confortável posição de aplicação mais rentável do ano. O volume total transacionado apresentou crescimento de 49,3% na comparação com 2005, atingindo R$ 598,9 bilhões, o maior já registrado. Essa nova marca elevou a média diária negociada para R$ 2,4 bilhões, 51,1% a mais do que os R$ 1,6 bilhão de 2005. O número de negócios realizado cresceu 38,9%, atingindo 21,5 milhões no ano, ante 15,5 milhões em 2005.
Quem ainda associa o pregão da bolsa a operadores gritando e gesticulando, pendurados em telefones e imersos em oceanos de papel picado, se surpreenderá com o desempenho do home broker. Esse sistema de negociação, pelo qual os investidores enviam ordens diretamente ao pregão eletrônico, atingiu, ao longo do ano que passou, um crescimento de 82,08% na média mensal de volume movimentado, passando de R$ 3,3 bilhões para R$ 6 bilhões, e de 78,71% no número de investidores, que saltou de 34.843 para 62.266. Foram criados 420 novos clubes de investimentos, que totalizaram 1.630 grupos, com patrimônio superior a R$ 9 bilhões, pertencente a 130 mil cotistas.
Esses números revelam um crescimento atrelado ao avanço tecnológico e à confiança que inspira o marco regulatório do setor, dimensionado para proteger o acionista minoritário a partir de rigorosa fiscalização da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), inclusive com a imposição de multas aos poucos negócios que escapam à regra geral da transparência. Mas eles também nos recordam o quanto ainda é pequeno o mercado brasileiro de ações, diante de seu imenso potencial: apenas 99 das 896 empresas do setor produtivo registradas na CVM continuam presentes em bolsa. Nos Estados Unidos, 35% das pessoas físicas investem em ações, contra apenas 15% entre nós.
Nos países onde o capitalismo funciona com razoável eficiência e as disparidades na distribuição de renda não são tão acentuadas como no Brasil, o mercado de capitais estimula os investimentos produtivos, não apenas dos grandes, mas também dos pequenos investidores. Com isso, as Bolsas de Valores, sempre sensíveis aos fatos políticos nacionais e internacionais, transformam-se em organismos mantenedores do equilíbrio macroeconômico, além de se erigirem em poderoso anteparo contra aventuras populistas ou “cavalos de pau” na economia. Assim, se os eleitores votam a cada quatro anos, os investidores votam todos os dias, expressando com a compra ou a venda de ações sua confiança ou descrédito nas empresas e nos atos do governo, razão pela qual as mágicas e pacotes rareiam onde o mercado de ações é forte. Nesses países, atropelar as bolsas significa afrontar o eleitorado.
No Brasil, é um contra-senso que muitas empresas busquem se financiar através de crédito bancário, com os juros nas alturas, quando poderiam fazê-lo por meio da abertura de seu capital, o que lhes daria acesso a um dinheiro emprestado por sócios, a ser remunerado se – e na medida em que – o empreendimento der lucro. Para as empresas sempre será melhor crescer com sócios do que com credores.
Países como o nosso são chamados de mercados emergentes sobretudo pelo que representa o potencial do nosso mercado de capitais: enquanto nos mercados maduros as ações atingem até duas ou três vezes o valor patrimonial das empresas, no Brasil o valor de mercado das ações ainda está abaixo, na média, desse mesmo valor patrimonial.

O mercado brasileiro de ações é pequeno: apenas 99 das 896 empresas registradas na CVM ainda estão presentes em bolsa

Tanto isto é verdade que os investidores estrangeiros, apesar dos periódicos abalos sísmicos das bolsas, continuam a investir com força, e não apenas capitais voláteis ou especulativos. O fluxo dos investimentos estrangeiros na Bovespa apresentou um saldo positivo de R$ 1,752 bilhão em 2006. A estabilidade continua a fornecer a base da credibilidade para esses investidores, que acreditam em nossa economia.
Mas, para os próprios brasileiros, a cultura do mercado acionário ainda é incipiente. As empresas necessitam de estímulos e garantias para abrir o capital ou lançar novas ações, enquanto o investidor individual precisa ser mais bem informado, e também estimulado. O uso do FGTS para comprar ações da Vale do Rio Doce e Petrobras foi uma experiência de sucesso que merece ser ampliada, para possibilitar a compra de papéis de outras empresas. Estas, por sua vez, devem criar programas tão comuns em outros países, de participação nos lucros e resultados por meio de ações. Tornar os empregados sócios do empreendimento, adotando esse critério para premiar um bom desempenho, é um caminho para envolvê-los mais com as estratégias e metas de crescimento da empresa. Todos terão a ganhar se, em vez de antagonista do capital, o empregado se reconhecer como associado a este.
Porém, em última análise, o grande salto para popularizar o capitalismo brasileiro pela via do mercado de capitais depende, principalmente, de reformas com a tributária e a previdenciária, que favoreçam a expansão dos fundos e clubes de investimento em ações e os fundos de pensão. O estímulo à previdência privada poderia gerar um potencial de investimento de centenas de bilhões de dólares a mais em ações.
Para ampliar o mercado acionário e torná-lo mais ativo, inclusive nas modalidades de debêntures e opção de compra, é preciso antes criar um ambiente com menos regulação, tributos e burocracia. O Estado deve ser mais transparente e menos controlador, abolindo formulários e racionalizando o número e as funções de secretarias e ministérios. As Parcerias Público Privadas podem ser ampliadas, com ênfase em novas emissões de capitais.
Em resumo, na medida em que mais empresas transformem em sócios anônimos os atuais correntistas dos bancos, o próprio setor financeiro terá que competir mais e operar melhor os recursos disponíveis para empréstimos, pois enfrentará a concorrência do público no financiamento da atividade empresarial. O maior oferta acabará por beneficiar o conjunto de todos os tomadores de empréstimo.
Abram Szajman é presidente da Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomercio SP) e dos Conselhos Regionais do Sesc e do Senac.

Invest Tur, zero-quilômetro, estréia na bolsa

ara alguns, é um sinal de que a bolsa brasileira vive uma euforia, em que os investidores compram qualquer coisa, nem que seja só uma idéia. Para outros, é uma demonstração do vigor dessa mesma bolsa, capaz de dar sustentação ao empreendedorismo verde-e-amarelo. Seja como for, estréiam hoje no pregão da Bovespa as ações da Invest Tur, uma empresa com quatro meses de vida, sem ativos, sem receita e muito menos lucro. Mas com a carteira cheia de projetos na área de hotelaria e turismo, setor com forte apelo junto aos investidores por conta do potencial brasileiro a ser desenvolvido.
Tudo indica que os investidores gostaram da história e das promessas que ouviram durante a série de apresentações ao mercado. A estimativa inicial era levantar R$ 600 milhões com a venda de ações. Mas a operação foi bem além e chegou a R$ 840 milhões, podendo alcançar ainda R$ 945 milhões, se for exercido um lote suplementar de ações. Dado o risco de se aplicar em um negócio sem qualquer histórico, somente os chamados investidores qualificados – institucionais e indivíduos com grande patrimônio – puderam participar da operação.
O charme da história é que os fundadores da Invest Tur são os criadores do sofisticado e badalado Txai Resort, em Itacaré, na Bahia. José Romeu Ferraz Neto, Márcio Botana Moraes e Joaquim Ferraz, donos do grupo RFM, também foram os responsáveis pelo desenvolvimento do Club Med de Trancoso (BA), do Caesar Towers Vila Olímpia e do George V Casa Branca, os dois últimos em São Paulo. Além de uma porção de edifícios residenciais e comerciais. Mas nenhum desses empreendimentos faz parte dos ativos ou da carteira de negócios da Invest Tur. São atividades do grupo RFM, que ficaram segregadas da nova empresa.
A Invest Tur tem um total de 62 projetos identificados, que somam investimentos de US$ 1,2 bilhão. Desses, 39 estão em estágio avançado de análise, segundo informações prestadas pela empresa. O dinheiro captado na oferta inicial de ações servirá para deslanchar os planos. Entre eles, levar a marca Txai para Trancoso, Salvador, Paraty, Santa Catarina e Rio.
Diferentemente de outras empresas que já existem e passam por uma avaliação para se estabelecer o preço de suas ações antes de irem a mercado, casos como o da Invest Tur assemelham-se mais à captação de um fundo.
História parecida foi vista com a abertura de capital da GP Investimentos e da mineradora MMX. E também em maio do ano passado, com o lançamento da BrasilAgro na bolsa, uma empresa também criada do zero (“greenfield”), voltada para explorar oportunidades em propriedades agrícolas. A companhia captou R$ 552 milhões dos investidores com a promessa de investir um terço dos recursos por ano.
Atualmente, a BrasilAgro está dentro da meta: já adquiriu o equivalente a R$ 190 milhões em terras, a serem pagas a prestação. Portanto, continua com R$ 500 milhões em caixa. Essas mesmas propriedades compradas demandarão investimentos de R$ 100 milhões, ou seja, 52% dos recursos levantados estão comprometidos.
Por enquanto, a empresa só teve receitas de arrendamento das terras, mas vai começar a operá-las agora. Na bolsa, suas ações subiram 24% desde a oferta inicial (2/05/2006) e seu valor de mercado foi a R$ 724 milhões. No mesmo período o Ibovespa valorizou-se 42,8%.
Os três sócios fundadores da InvestTur serão totalmente diluídos com a captação, ficando com 0,01% da empresa, que terá seu capital pulverizado. A compensação deles virá de quatro formas. Os três receberam debêntures conversíveis em ações da companhia, no valor de R$ 100 milhões, que darão direito a participação nos lucros.
Além disso, constituíram uma empresa, a GR Capital, que prestará consultoria à Invest Tur nos projetos. A GR Capital receberá uma remuneração anual equivalente a 1% do capital social da Invest Tur. Ferraz Neto, um dos sócios-fundadores, será o presidente da empresa e outro deles, Márcio Moraes, será vice-presidente do conselho. Como quarta forma de compensação, a Invest Tur deverá comprar ações de duas empresas, a Txai Turismo e a Txai Hotéis, que pertencem a parentes de Márcio Moraes.
A companhia tem três frentes de projetos. Na primeira delas, a idéia é desenvolver resorts de uso misto, com hotéis e também casas a serem usadas com “segunda residência” por estrangeiros. A frente chamada de negócios relacionados ao turismo poderá englobar parques ecológicos e parcerias público-privadas para construção de aeroportos e marinas, por exemplo. Em turismo de negócios, o plano é erguer hotéis urbanos com centros de convenções.


O conselho de administração ideal de uma empresa

A perpetuidade da companhia deve ser o grande objetivo de seus administradores. Cabe ao conselho de administração – como representante dos acionistas – fazer com que a empresa aproveite as oportunidades e cumpra com suas obrigações junto aos seus representados, clientes, fornecedores, colaboradores e comunidades nas quais atua. Para que o conselho atue de forma eficiente e eficaz, não basta seguir o que dizem os legisladores ou os códigos de melhores práticas de governança corporativa. É preciso ir além.
Neste momento, em que as empresas brasileiras realizam suas assembléias anuais de acionistas e muitas fazem eleições de integrantes para o conselho de administração, vale a pena refletir sobre os fatores que levam um conselho a desempenhar plenamente seu potencial.
Podemos começar com uma breve avaliação do conselho de uma empresa. Algumas questões são:
1) Será que os conselheiros estão conscientes de suas responsabilidades e dos desafios da empresa?
2) Os conselheiros conhecem bem as variáveis-chaves do desempenho da empresa e os riscos envolvidos?
3) O conselho tem dedicado tempo considerável para discutir os objetivos de longo prazo da empresa e as estratégias para atingi-los?
4) O conselho periodicamente revisa a estrutura organizacional, o desempenho dos executivos, a política de Recursos Humanos e analisa a necessidade de eventuais mudanças para o futuro?
5) O conselho recebe no momento apropriado as informações para ter certeza que está no controle da empresa e dos executivos?
6) O conselho tem tempo e conhecimento suficientes para analisar e tomar decisões difíceis?
7) Os conselheiros têm independência para tomar decisões?
Se a resposta for negativa para algumas destas perguntas, é melhor pensar em criar um novo conselho.
Definir a função é o primeiro passo para se ter um conselho efetivo. As três principais funções do conselho são: monitorar, decidir e aconselhar. O conselho deve monitorar o desempenho da empresa e de seus executivos. Infelizmente, a maioria dos conselhos de empresas brasileiras gasta boa parte de suas reuniões analisando o desempenho passado, ao invés de discutir o futuro.
Os assuntos que envolvem decisões importantes devem vir em primeiro lugar na agenda das reuniões. O conselho deve tomar as decisões que implicam em planos ou ações de alto impacto para a empresa. Ele também deve ter condições de aconselhar o presidente executivo (CEO), que ocupa uma posição solitária e precisa do órgão para compartilhar suas idéias e solucionar os problemas. Para definir seu papel, os conselheiros devem se perguntar: 1) o que pretendemos atingir? 2) o que é realista considerando nosso conhecimento e disponibilidade de tempo? 3) qual é a nossa proposta de criação de valor para empresa e acionistas?
Quando o papel está definido, o desafio se torna o desenho e a montagem da estrutura. Neste instante, é importante se pensar sobre o tamanho ideal, o “mix” entre conselheiros internos e externos, a criação de comitês e a separação de funções entre o presidente do conselho (chairman) e o presidente executivo (CEO). A situação da empresa, a complexidade de seu setor de atuação, o estilo e a competência do conselho ajudarão a definir o grau de dedicação necessária de cada conselheiro e o número de integrantes.
Enquanto a estrutura é importante e a melhor forma de iniciar a montagem de um conselho. É fundamental escolher e manter as pessoas certas. No Brasil, já passamos pela fase dos “conselhos de compadres”, mas ainda temos muitos “conselhos de notáveis”, com objetivos mais institucionais do que propriamente de criação de valor. No entanto, temos assistido nos últimos anos uma crescente profissionalização dos conselhos de administração, com a presença de executivos independentes que têm um envolvimento construtivo e contribuem para a realização dos resultados da empresa.
O último passo é procurar tirar o máximo proveito do conselho. Para tanto, é importante: utilizar o tempo dos conselheiros mais produtivamente; fornecer informações com qualidade e no prazo adequado; encorajar o foco nas questões mais importantes; desenvolver processos que facilitem o monitoramento; e tirar maior proveito das reuniões (menos Power Point e mais discussões!). No mínimo 50% do tempo das reuniões deve ser dedicado para discussões com os principais executivos sobre as questões relevantes que afetam os negócios da empresa.
O conselho de administração realmente criará valor se estiver alinhado com as melhores práticas de governança corporativa, com uma clara definição de seu papel, uma estrutura apropriada, com as pessoas certas e processos que permitam extrair o máximo de cada conselheiro.
Paulo Conte Vasconcellos é conselheiro profissional e sócio da ProxyCon Assessoria e Participações
E-mail paulo@proxycon.com.br