Empresas virtuais
| Um país pode ter uma política de investimentos diversificados, embora concentrando recursos apenas em atividades nas quais tenha as melhores condições de competitividade. Esse país entrará e sairá facilmente de outros investimentos, nos quais não seja competitivo, que serão apenas financeiros, não físicos. E administrará seu perfil de risco sem expor-se a situações de dano incontornável, como no caso de insucesso do investimento numa indústria não competitiva. Tudo isso seria possível com a aplicação do conceito de swap de risco-país, desenvolvido por Robert Merton, Prêmio Nobel de Economia de 1997, com base naquilo que já se faz habitualmente nos mercados financeiros por meio do intercâmbio de posições de investimento em operações destinadas a reduzir os “custos de transação”. Merton aposta que essa prática deverá tornar-se comum em menos tempo do que se possa imaginar, como disse ao Valor. |
| “O swap não é um procedimento invasivo. Não requer nenhuma grande alteração nas estruturas de emprego ou industriais, nem no sistema financeiro. Além disso, a política é reversível. Se você fizer um grande swap hoje para modificar os padrões de risco e, daqui a dois anos, decidir que não era isso que queria fazer, tudo bem. Mas se você construir fisicamente uma indústria, não há como voltar atrás”, explicou. |
| A operação de swap tem sido usada por bancos e empresas de investimento em vários países, para minimizar a exposição a diferentes tipos de risco, como os do câmbio, das taxas de juros e do mercado de ações. Mas o sistema de swap de risco-país seria aplicável, por exemplo, ao caso de um país que seja competitivo na produção de automóveis e tenha uma indústria inexpressiva de componentes eletrônicos. |
| Para reduzir problemas decorrentes do fato de ser dependente de um só setor da economia, esse país tenderia a investir pesadamente no setor em que não é competitivo. Com o swap, porém, poderá fazer um acordo de troca de riscos com um país competitivo em eletrônica, por exemplo, com base em determinado valor, de forma que cada qual pagaria retornos sobre um portfólio internacional de ativos do respectivo setor. Assim, a exposição ao risco do primeiro país ficaria reduzida à diferença de retornos do portfólio do setor automotivo (o seu) e do setor eletrônico. |
| Apesar de o Brasil ser um país com economia diversificada e recursos naturais, Merton avalia que o swap encontraria campo de aplicação também aqui, por ser um instrumento para promover o crescimento econômico a longo prazo. “O compartilhamento eficaz de riscos e a existência de um sistema financeiro eficaz podem ser elementos importantes para o crescimento e o desenvolvimento econômico”, afirma Merton. |
| Aos 61 anos, Merton é professor da Universidade de Harvard. Ganhou o Nobel pela criação de um “novo método para determinar o valor dos derivativos”. Derivativos são contratos ou títulos cujo valor está relacionado aos movimentos de preço de um outro título, instrumento ou índice. Pode ser utilizado como instrumento de hedge, simplesmente, mas também é conhecido pelo uso amplo em operações que visam apenas a especulação. Para a Academia Sueca de Ciências, a fórmula desenvolvida por Merton “propiciou novos tipos de instrumentos financeiros e facilitou o gerenciamento de riscos na sociedade”. |
| O objetivo de Merton, agora, é dar prosseguimento à difusão de sua nova tese e à aplicação prática do conceito de risco-país. Para isso, fundou a Integrated Finance Limited, dedicada à consultoria de empresas e países interessados nessas operações. |
| Embora seja um economista respeitado, Merton não traz apenas idéias bem-sucedidas em seu currículo. Foi um dos fundadores da empresa de hedge-fund Long-Term Capital Management, que quebrou em 1998, apenas um ano após o professor receber o Nobel. O colapso do fundo quase provocou um cataclisma financeiro global em plena crise do Sudeste Asiático. |
Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao Valor. |
| Valor: O senhor tem defendido que uma saída para oferecer menos riscos a uma nação, que hoje precisa diversificar sua produção industrial para ser competitiva, é recorrer à operação que denomina de swap de risco-país. Como esse mecanismo poderia contrabalançar o perigo de perdas? |
| Robert Merton: A idéia central é reduzir a troca entre a busca da vantagem comparativa e a diversificação eficaz dos riscos, que tipicamente leva um país a investir em muitas áreas diferentes, não relacionadas. Esses dois fatores são conflitantes. Sugiro um canal para compartilhar riscos de modo mais eficaz em escala internacional. O problema da diversificação industrial é que, para inaugurar um novo setor num país é preciso investir, contratar funcionários, treiná-los, abrir firmas e protegê-las até que comecem a ter autonomia e, mesmo assim, é quase certo que este país não será tão competitivo quanto outros mais avançados naquela área. Para abrir este novo setor também será preciso mudar o modo como se fazem as coisas naquele determinado país. É preciso que os trabalhadores se qualifiquem para os novos postos, para desempenhar funções diferentes, ao passo que, com a aplicação do swap de risco, o país se livra do alto risco desses investimentos. As pessoas vão para o trabalho hoje exatamente como foram ontem. Nada muda fisicamente na administração dos negócios, nos empregos, nos padrões de comportamento, na estrutura industrial. |
| Valor: A idéia é que um país busque sua vantagem comparativa na produção em relação ao mercado internacional e se faça o swap num portfólio internacional do setor? |
| Merton: Isso é o que recomendo. Alguns de meus colegas recomendam o mesmo tipo de procedimento, principalmente em países onde é predominante a produção de certas mercadorias, como o cobre no Chile, o petróleo no México. Não é o caso do Brasil, que possui uma economia muito mais diversificada. É preciso arrecadar o valor capitalizado daquilo que se tem, não os fluxos anuais. Não é apenas o PIB alcançado em determinado ano ou a receita de determinado ano que se torna um fator de risco. Trata-se do valor capitalizado, a receita futura de um setor que gera mais risco. Se você possui ações de uma companhia, não está exposto apenas aos ganhos ou dividendos em determinado ano, mas também aos de anos seguintes, isto é, ao valor capitalizado. |
| Valor: Mesmo um país como o Brasil, com recursos naturais e recursos de produção, poderia se beneficiar do swap de risco país? |
| Merton: Claro que sim. Obviamente, países menores, com menos vantagens comparativas, provavelmente se beneficiariam mais. Mas em todos esses casos estamos falando de desenvolvimento econômico de longo prazo. O compartilhamento eficaz de riscos e a existência de um sistema financeiro eficaz podem ser elementos importantes para o crescimento e o desenvolvimento econômico. O swap não é um procedimento invasivo; não requer nenhuma grande alteração nas estruturas de emprego ou industriais, nem no sistema financeiro. Além disso, a política é reversível. Se você fizer um grande swap hoje para modificar os padrões de risco e, daqui a dois anos, decidir que não era isso que queria fazer, tudo bem. Mas se construiu uma indústria fisicamente, não há como voltar atrás. |
| Valor: O senhor vê conexões com este mecanismo de operação e o usado nas operações de crédito de carbono? |
| Merton: Em alguns aspectos, se equivalem. Os contratos de crédito de carbono são para trocar direitos ou oportunidades, que podem reduzir alguns riscos. O swap de risco país é uma aplicação um pouco diferente. A maioria dos países não tem risco diversificado. Grande parte possui relativamente poucos setores nos quais apresenta vantagem comparativa. O ideal seria que, com relação à produção e ao desenvolvimento, os países se concentrassem em sua vantagem comparativa. Digamos que você inaugura uma indústria automobilística e, cinco anos mais tarde, quando tem cem mil pessoas trabalhando, decide que não foi uma boa idéia; não há como voltar atrás. Mas no caso do swap você pode voltar atrás. É só fazer um contrato de “off-setting” – quase sem nenhum impacto sobre a vida no país. No entanto, em se tratando de exposição a riscos, o ideal seria que esses países pudessem diversificá-los globalmente. E a melhor política em termos de diversificação é fazer negócios no mundo inteiro. |
| Valor: Aqueles que se orientam pela engenharia econômica se concentram nos aspectos tecnológicos. Acreditam que tecnologia por si só pudesse produzir ganhos econômicos reais para determinado país ou região. Eles estão certos? |
|
“O problema da diversificação industrial é que para inaugurar um novo setor é preciso investir, contratar, treinar e proteger |
| Merton: É claro que a tecnologia é muito importante – se não há tecnologia, não há base para crescimento. No entanto, você pode ter toda a tecnologia, mas se ela não for desenvolvida ou transformada em realidade econômica, não terá vantagem alguma. E, ao que parece, essa transformação, para aqueles que a estudaram historicamente, é altamente influenciada pela capacidade não só de obter capital, mas também de gerenciar e distribuir riscos. Não se pode fazer uma comparação direta, mas é algo parecido com a discussão sobre como lidar com a fome no mundo. O problema não é a inexistência de alimento em quantidade suficiente, e sim a distribuição: fazer com que o alimento chegue até as pessoas que precisam dele. Esse sistema de distribuição é intangível e a comparação que faço é a seguinte: existe muita tecnologia por aí, mas, a menos que se descubra um meio de implementá-la efetivamente na economia, não haverá crescimento. Se você fala com um ortopedista, ele se concentra em seus ossos; se você fala com um cardiologista, ele se concentra em seu coração; você está falando com um especialista em finanças, que se concentra no sistema financeiro. |
| Valor: Mas os países têm questões de soberania. Se os estrangeiros detêm uma grande parcela das ações de uma companhia, não podem surgir conflitos com relação à política governamental? |
| Merton: Realmente, podem surgir questões políticas, como quando se ouve dizer que o país vendeu seus melhores bens a um preço muito baixo. Também acontece de investidores estrangeiros temerem expropriações, ou a imposição de controles de capital. Existem aspectos positivos e riscos para ambas as partes. |
| Valor: Que importância teria para a eficácia de um swap de risco-país o fato de investidores locais controlarem um setor competitivo |
| Merton: É como o mercado mundial de chips, de cobre ou qualquer outro. Os investidores locais ainda detêm controle sobre o setor, as ações ainda são negociadas em mercados locais, se houver um mercado de ações. Assim, evita-se parte do risco de vender as jóias da coroa do país. |
| Valor: A melhor estratégia seria começar aplicando swaps aos fundos de pensão e, em seguida, adotar medidas de redução de riscos? |
| Merton: Essa pode ser uma maneira natural de implementar o swap, começando pelos fundos de pensão. Gostaria de ser mais preciso e dizer que é assim que se deve fazer, mas estou fornecendo um conceito. Os detalhes da implementação devem ser adaptados para atender ao conjunto de necessidades, o ambiente institucional, a cultura de cada país etc. Não se trata de importar um modelo, porque se trata de um conceito, o conceito de transferir grandes riscos e permitir que o país em questão trabalhe com suas vantagens comparativas, concentrando investimentos em uma variedade relativamente pequena de áreas. |
| Valor: De que maneira um sistema financeiro ideal favoreceria o progresso tecnológico? |
| Merton: A natureza das coisas é a adaptação para criar conjuntos de instituições e mercados. Uso o termo instituição no sentido amplo, incluindo regulamentos, impostos etc. É preciso tirar proveito das tecnologias financeiras comprovadamente eficazes e das novas tecnologias físicas – telecomunicações, computação e assim por diante – para criar o maior número possível de canais para investimento e compartilhamento de riscos, para tentar incentivar o empreendedorismo, não necessariamente o empreendedorismo individual, mas também em ambientes empresariais de grande porte. É preciso criar um sistema de distribuição que permita de fato a transformação do progresso tecnológico em realidade econômica, em uma escala que possa ter um impacto significativo sobre um país ou região. |
| Valor: É por isso que o senhor diz que as instituições são muito importantes para esse tipo de negócio? Elas representam uma garantia aos investidores estrangeiros? |
| Merton: As vantagens de se utilizar swap em vez de empréstimos, investimento direto com recursos domésticos ou investimento direto estrangeiro é que esta transação financeira, por natureza, minimiza bastante o risco de expropriação, porque não há um montante principal a ser expropriado. Em outras palavras, um swap de US$ 1 bilhão em risco de chips de computador é diferente de um investimento estrangeiro de US$ 1 bilhão nesse setor ou de um empréstimo de US$ 1 bilhão. Se houver medidas de controle de capital ou simplesmente uma aquisição, US$ 1 bilhão será a quantia expropriada, mas, no caso de um swap, não há um montante principal, apenas uma troca de retornos. Logo, a quantia passível de expropriação é muito menor. |
| Valor: O senhor acha que será mais fácil para os mercados emergentes a aplicação deste mecanismo de swap de risco-país? |
| Merton: Bem, não sou macroeconomista, mas quantas vezes você já ouviu falar de receitas segundo as quais políticas fiscais e monetárias, estabilizações, moedas etc. são importantes para o crescimento e o desenvolvimento econômico? Esses fatores obviamente são importantes, mas no curto prazo. |
| Valor: Essa é uma abordagem do FMI: ser muito cuidadoso com a política monetária. No Brasil segue-se essa receita. |
| Merton: Sim, mas não estou criticando essas receitas em particular. Só estou dizendo que a ênfase da discussão deve ser outra. Talvez seja adequado dedicar recursos para analisar a estrutura financeira local e encontrar melhores meios de distribuição de riscos, melhores canais de investimento e assim por diante. Não se trata de escolher entre uma ou outra receita. Só estou afirmando que, em geral, a ênfase é colocada nesses elementos que citei. Pessoas como o professor Douglass North [professor da Universidade de Wahington e ganhador do Nobel de 1993] publicaram várias obras indicando que um sistema financeiro em bom funcionamento é um ingrediente importante para incentivar o crescimento econômico de longo prazo, principalmente quando esse sistema tira proveito do progresso tecnológico. |
| Valor: O desenvolvimento de um sistema financeiro mais eficaz é a solução definitiva para o desenvolvimento e o crescimento econômico? |
| Merton: Só digo que é um fator importante. Existem muitas tecnologias financeiras. Estou falando de tecnologias comprovadas, não experimentais. Elas podem gerar benefícios, estou concentrado nesses benefícios. |
| (Robinson Borges) |
