Archive for janeiro, 2008
Brasil Brokers capta 13 vezes a receita
| Nem passado glorioso, nem projeto detalhado. Muito menos, nome conhecido na praça. Mesmo sem se encaixar no perfil das tipicamente mais atrativas, a recém-constituída Brasil Brokers conseguiu um feito no mercado de aberturas de capital do pós-crise. A companhia encontrou espaço para fazer uma colocação secundária de ações do tamanho da primária. Foram R$ 608 milhões no total: metade com papéis dos acionistas e o restante, com novas ações, para capitalizar a empresa. |
| Neste ano, excluindo a Bovespa Holding, só Cremer, Wilson Sons, Log-in e Tegma conseguiram um mix parecido na oferta, entre primária e secundária. É o quinto caso num universo de 60 estréias na bolsa. E o primeiro desde que o discurso de seletividade do investidor começou a ganhar força. |
| O inusitado da Brasil Brokers é ainda maior considerando que se trata de uma companhia do setor imobiliário e que a colocação foi destinada a investidores “qualificados” – que possuem familiaridade com o universo financeiro e aplicações de, no mínimo, R$ 300 mil. Quando foi apresentada ao mercado, há meses circulavam comentários de que não haveria mais espaço para operações do setor de construção, dada a grande quantidade de ofertas ocorridas no primeiro semestre. Com a emissão primária, a Brasil Brokers colocou R$ 304 milhões em seu caixa: valor quase 13 vezes superior ao faturamento líquido do primeiro semestre, de R$ 23,5 milhões. Essa posição pode chegar a R$ 425,6 milhões, ou 18 vezes a receita dos seis primeiros meses do ano, caso a operação alcance os R$ 821 milhões potenciais com o lote suplementar de papéis, que pode ser vendido até fim de novembro. |
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| A companhia é resultado da união de 16 imobiliárias. A idéia do negócio nasceu em fevereiro e todas as aquisições ocorreram neste segundo semestre do ano. Algumas delas só se concretizaram depois de pedido o registro da oferta de ações à Comissão de Valores Mobiliários (CVM). No prospecto preliminar, só foram apresentadas 11 subsidiárias. |
| Pelo preço das ações na oferta inicial, os investidores atribuíram valor de R$ 1,6 bilhão à Brasil Brokers. O montante é mais do que o dobro dos R$ 639 milhões encontrados pela Z3M Planejamento, na avaliação solicitada pelo fundo Gulf I de Investimentos em Participações, sócio controlador até a oferta. |
| Segundo o prospecto da operação, a Brasil Brokers tem 3 mil corretores, em 363 pontos de venda, considerando as 16 subsidiárias. No momento da oferta de ações, tinha 33,6 mil imóveis prontos para revenda. Na carteira, considerando os projetos ainda no papel, são 190 mil unidades. O valor geral de vendas (VGV) potencial deles é de R$ 33,7 bilhões, sendo que o equivalente a R$ 26,9 bilhões ficará pronto para comercialização até o fim de 2009. |
| O negócio da empresa é, basicamente, corretagem imobiliária. A idéia de constituição da companhia teve como objetivo criar uma companhia de atuação nacional. Dada a juventude da iniciativa, 10% do que for arrecadado na oferta terá que ser destinado para efetivamente reunir as empresas compradas. Os recursos serão usados para aquisição e implantação de sistemas de tecnologia da informação e treinamento. |
| A maior parte da captação, 80% do total, será direcionada para novas aquisições. Na prática, significa que o projeto e a própria a companhia ainda estão ganhando forma. |
| Na oferta secundária, além dos sócios herdados da união das 16 imobiliárias, o fundo de investimento e sócio majoritário Gulf I foi o que mais arrecadou, junto da PDG Realty. A carteira da Gulfinvest obteve R$ 152 milhões na venda de ações, podendo chegar a R$ 202,6 milhões. |
| É no Gulf I que está o idealizador da empresa Ney Prado Júnior (45% do patrimônio). O fundo teve sua fatia na Brasil Brokers reduzida de 48% para 29% – podendo cair até 24%. |
| A PDG têm 25% da carteira desse fundo e embolsou R$ 43 milhões da oferta secundária. O valor pode subir para R$ 54 milhões, no caso de venda do lote suplementar. A companhia ajudou a compor a Brasil Brokers com a imobiliária Avance. Embora a unidade contribua com menos de 7% do VGV a ser lançado, a PDG ficou com 14% do montante arrecadado pelos acionistas. |
| O discurso de seletividade ganhou corpo ao longo deste ano, por conta do grande volume de operações, e intensificou-se após a crise nos mercados financeiros internacionais. Mais crítico, além de preferir emissões primárias, nas quais o dinheiro vai para o crescimento da companhia, às secundárias, em que os recursos vão direto para o bolso dos acionistas, o mercado passou a exigir também bons projetos para justificar a captação. Ao longo de todo este ano foram levantados R$ 29,5 bilhões em ofertas primárias nas aberturas de capital e, apenas R$ 12,2 bilhões em secundárias. |
| Poucos dias antes do pico da crise, feito semelhante foi o da Invest Tur, que constituía-se, exclusivamente, de um projeto no papel. Captou R$ 945 milhões na Bovespa. O objetivo é explorar projetos imobiliários voltados ao turismo no Nordeste. A empresa vendeu a idéia pela experiência dos sócios, uma vez que foram os criadores do Txai Itacaré (BA) – Joaquim Ferraz, José Romeu Ferraz Neto e Marcio Botana Moraes, donos da GR Capital Consultoria. Após a capitalização, a Invest Tur comprou o resort baiano Txai da família de um dos sócios originais, por R$ 15,5 milhões. Os fundadores recebem ainda, por meio da GR Capital, cerca de R$ 2,5 milhões a cada três meses, por serviços de consultoria prestados à empresa. |
Tudo se cria, tudo se transforma
| Idéias que batem de frente com modos estabelecidos de pensar ou fazer são geralmente vistas com ceticismo. Foi assim com o Linux, sistema operacional criado no princípio dos anos 1990 por Linus Benedict Torvalds. Hoje, são ícones, ele próprio e sua criatura, da indústria do software livre, que tem a IBM, por exemplo, entre seus mais ilustres associados. E o sistema Windows, da Microsoft, ganhou um concorrente respeitável. “The Wealth of Networks”, de Yochai Benkler, professor de direito em Yale, é um livro inspirado em experiências como a de Torvalds, possibilitadas pela tecnologia que se mistura com filosofia nos princípios que regem a criação e o funcionamento de redes de relacionamento, via internet, para a produção cooperativa de um bem informacional ou cultural. O livro, agora lançado pela Yale University Press, pode ser comprado na Amazon ou na Powell´s (US$ 40), mas também está disponível na internet, para download gratuito, e inteiramente aberto a colaborações ( http:// www.benkler.org/wealth-of- net works/index.php/Main-Page ). |
| É a “peer production”, aquela que se faz nos limites de uma comunidade de pessoas que se identificam no interesse por um assunto – e que, como diz Benkler no livro, “constitui um duro desafio para o pensamento convencional a respeito da economia da produção de informação”. Mas não se trata de excepcionalidades, coisas efêmeras, afirma o autor. “É um erro pensar que temos somente duas formas básicas de transações livres – aquelas dos mercados e suas relações de contrato e propriedade, e empresas hierarquicamente organizadas. Temos três, e a terceira é o compartilhamento e a troca de caráter social.” |
| Benkler argumenta que, se o domínio da propriedade intelectual, das marcas registradas e das patentes não parou de se expandir, nos últimos poucos anos também ganharam ímpeto forças sociais que agem em sentido contrário. |
| A visão de Benkler não é de todo utópica. Que o digam Torvalds e os milhares de participantes da comunidade mundial que ele criou. Ou a IBM, que aderiu ao Linux e o instalou em seus servidores, para fazer frente ao Windows da Microsoft. São fatos. Benkler não tem dúvida: o futuro da economia da informação está nas redes, lugares virtuais em que já se comprova ser possível mudar os modos como se cria e troca informação, conhecimento e cultura. Idéias para um “novo capitalismo”? |
Crescer com sócios
| A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) encerrou 2006 com alta acumulada de 32,9%, o que mais uma vez a deixou na confortável posição de aplicação mais rentável do ano. O volume total transacionado apresentou crescimento de 49,3% na comparação com 2005, atingindo R$ 598,9 bilhões, o maior já registrado. Essa nova marca elevou a média diária negociada para R$ 2,4 bilhões, 51,1% a mais do que os R$ 1,6 bilhão de 2005. O número de negócios realizado cresceu 38,9%, atingindo 21,5 milhões no ano, ante 15,5 milhões em 2005. |
| Quem ainda associa o pregão da bolsa a operadores gritando e gesticulando, pendurados em telefones e imersos em oceanos de papel picado, se surpreenderá com o desempenho do home broker. Esse sistema de negociação, pelo qual os investidores enviam ordens diretamente ao pregão eletrônico, atingiu, ao longo do ano que passou, um crescimento de 82,08% na média mensal de volume movimentado, passando de R$ 3,3 bilhões para R$ 6 bilhões, e de 78,71% no número de investidores, que saltou de 34.843 para 62.266. Foram criados 420 novos clubes de investimentos, que totalizaram 1.630 grupos, com patrimônio superior a R$ 9 bilhões, pertencente a 130 mil cotistas. |
| Esses números revelam um crescimento atrelado ao avanço tecnológico e à confiança que inspira o marco regulatório do setor, dimensionado para proteger o acionista minoritário a partir de rigorosa fiscalização da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), inclusive com a imposição de multas aos poucos negócios que escapam à regra geral da transparência. Mas eles também nos recordam o quanto ainda é pequeno o mercado brasileiro de ações, diante de seu imenso potencial: apenas 99 das 896 empresas do setor produtivo registradas na CVM continuam presentes em bolsa. Nos Estados Unidos, 35% das pessoas físicas investem em ações, contra apenas 15% entre nós. |
| Nos países onde o capitalismo funciona com razoável eficiência e as disparidades na distribuição de renda não são tão acentuadas como no Brasil, o mercado de capitais estimula os investimentos produtivos, não apenas dos grandes, mas também dos pequenos investidores. Com isso, as Bolsas de Valores, sempre sensíveis aos fatos políticos nacionais e internacionais, transformam-se em organismos mantenedores do equilíbrio macroeconômico, além de se erigirem em poderoso anteparo contra aventuras populistas ou “cavalos de pau” na economia. Assim, se os eleitores votam a cada quatro anos, os investidores votam todos os dias, expressando com a compra ou a venda de ações sua confiança ou descrédito nas empresas e nos atos do governo, razão pela qual as mágicas e pacotes rareiam onde o mercado de ações é forte. Nesses países, atropelar as bolsas significa afrontar o eleitorado. |
| No Brasil, é um contra-senso que muitas empresas busquem se financiar através de crédito bancário, com os juros nas alturas, quando poderiam fazê-lo por meio da abertura de seu capital, o que lhes daria acesso a um dinheiro emprestado por sócios, a ser remunerado se – e na medida em que – o empreendimento der lucro. Para as empresas sempre será melhor crescer com sócios do que com credores. |
| Países como o nosso são chamados de mercados emergentes sobretudo pelo que representa o potencial do nosso mercado de capitais: enquanto nos mercados maduros as ações atingem até duas ou três vezes o valor patrimonial das empresas, no Brasil o valor de mercado das ações ainda está abaixo, na média, desse mesmo valor patrimonial. |
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O mercado brasileiro de ações é pequeno: apenas 99 das 896 empresas registradas na CVM ainda estão presentes em bolsa |
| Tanto isto é verdade que os investidores estrangeiros, apesar dos periódicos abalos sísmicos das bolsas, continuam a investir com força, e não apenas capitais voláteis ou especulativos. O fluxo dos investimentos estrangeiros na Bovespa apresentou um saldo positivo de R$ 1,752 bilhão em 2006. A estabilidade continua a fornecer a base da credibilidade para esses investidores, que acreditam em nossa economia. |
| Mas, para os próprios brasileiros, a cultura do mercado acionário ainda é incipiente. As empresas necessitam de estímulos e garantias para abrir o capital ou lançar novas ações, enquanto o investidor individual precisa ser mais bem informado, e também estimulado. O uso do FGTS para comprar ações da Vale do Rio Doce e Petrobras foi uma experiência de sucesso que merece ser ampliada, para possibilitar a compra de papéis de outras empresas. Estas, por sua vez, devem criar programas tão comuns em outros países, de participação nos lucros e resultados por meio de ações. Tornar os empregados sócios do empreendimento, adotando esse critério para premiar um bom desempenho, é um caminho para envolvê-los mais com as estratégias e metas de crescimento da empresa. Todos terão a ganhar se, em vez de antagonista do capital, o empregado se reconhecer como associado a este. |
| Porém, em última análise, o grande salto para popularizar o capitalismo brasileiro pela via do mercado de capitais depende, principalmente, de reformas com a tributária e a previdenciária, que favoreçam a expansão dos fundos e clubes de investimento em ações e os fundos de pensão. O estímulo à previdência privada poderia gerar um potencial de investimento de centenas de bilhões de dólares a mais em ações. |
| Para ampliar o mercado acionário e torná-lo mais ativo, inclusive nas modalidades de debêntures e opção de compra, é preciso antes criar um ambiente com menos regulação, tributos e burocracia. O Estado deve ser mais transparente e menos controlador, abolindo formulários e racionalizando o número e as funções de secretarias e ministérios. As Parcerias Público Privadas podem ser ampliadas, com ênfase em novas emissões de capitais. |
| Em resumo, na medida em que mais empresas transformem em sócios anônimos os atuais correntistas dos bancos, o próprio setor financeiro terá que competir mais e operar melhor os recursos disponíveis para empréstimos, pois enfrentará a concorrência do público no financiamento da atividade empresarial. O maior oferta acabará por beneficiar o conjunto de todos os tomadores de empréstimo. |
| Abram Szajman é presidente da Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomercio SP) e dos Conselhos Regionais do Sesc e do Senac. |
Invest Tur, zero-quilômetro, estréia na bolsa
| ara alguns, é um sinal de que a bolsa brasileira vive uma euforia, em que os investidores compram qualquer coisa, nem que seja só uma idéia. Para outros, é uma demonstração do vigor dessa mesma bolsa, capaz de dar sustentação ao empreendedorismo verde-e-amarelo. Seja como for, estréiam hoje no pregão da Bovespa as ações da Invest Tur, uma empresa com quatro meses de vida, sem ativos, sem receita e muito menos lucro. Mas com a carteira cheia de projetos na área de hotelaria e turismo, setor com forte apelo junto aos investidores por conta do potencial brasileiro a ser desenvolvido. |
| Tudo indica que os investidores gostaram da história e das promessas que ouviram durante a série de apresentações ao mercado. A estimativa inicial era levantar R$ 600 milhões com a venda de ações. Mas a operação foi bem além e chegou a R$ 840 milhões, podendo alcançar ainda R$ 945 milhões, se for exercido um lote suplementar de ações. Dado o risco de se aplicar em um negócio sem qualquer histórico, somente os chamados investidores qualificados – institucionais e indivíduos com grande patrimônio – puderam participar da operação. |
| O charme da história é que os fundadores da Invest Tur são os criadores do sofisticado e badalado Txai Resort, em Itacaré, na Bahia. José Romeu Ferraz Neto, Márcio Botana Moraes e Joaquim Ferraz, donos do grupo RFM, também foram os responsáveis pelo desenvolvimento do Club Med de Trancoso (BA), do Caesar Towers Vila Olímpia e do George V Casa Branca, os dois últimos em São Paulo. Além de uma porção de edifícios residenciais e comerciais. Mas nenhum desses empreendimentos faz parte dos ativos ou da carteira de negócios da Invest Tur. São atividades do grupo RFM, que ficaram segregadas da nova empresa. |
| A Invest Tur tem um total de 62 projetos identificados, que somam investimentos de US$ 1,2 bilhão. Desses, 39 estão em estágio avançado de análise, segundo informações prestadas pela empresa. O dinheiro captado na oferta inicial de ações servirá para deslanchar os planos. Entre eles, levar a marca Txai para Trancoso, Salvador, Paraty, Santa Catarina e Rio. |
| Diferentemente de outras empresas que já existem e passam por uma avaliação para se estabelecer o preço de suas ações antes de irem a mercado, casos como o da Invest Tur assemelham-se mais à captação de um fundo. |
| História parecida foi vista com a abertura de capital da GP Investimentos e da mineradora MMX. E também em maio do ano passado, com o lançamento da BrasilAgro na bolsa, uma empresa também criada do zero (“greenfield”), voltada para explorar oportunidades em propriedades agrícolas. A companhia captou R$ 552 milhões dos investidores com a promessa de investir um terço dos recursos por ano. |
| Atualmente, a BrasilAgro está dentro da meta: já adquiriu o equivalente a R$ 190 milhões em terras, a serem pagas a prestação. Portanto, continua com R$ 500 milhões em caixa. Essas mesmas propriedades compradas demandarão investimentos de R$ 100 milhões, ou seja, 52% dos recursos levantados estão comprometidos. |
| Por enquanto, a empresa só teve receitas de arrendamento das terras, mas vai começar a operá-las agora. Na bolsa, suas ações subiram 24% desde a oferta inicial (2/05/2006) e seu valor de mercado foi a R$ 724 milhões. No mesmo período o Ibovespa valorizou-se 42,8%. |
| Os três sócios fundadores da InvestTur serão totalmente diluídos com a captação, ficando com 0,01% da empresa, que terá seu capital pulverizado. A compensação deles virá de quatro formas. Os três receberam debêntures conversíveis em ações da companhia, no valor de R$ 100 milhões, que darão direito a participação nos lucros. |
| Além disso, constituíram uma empresa, a GR Capital, que prestará consultoria à Invest Tur nos projetos. A GR Capital receberá uma remuneração anual equivalente a 1% do capital social da Invest Tur. Ferraz Neto, um dos sócios-fundadores, será o presidente da empresa e outro deles, Márcio Moraes, será vice-presidente do conselho. Como quarta forma de compensação, a Invest Tur deverá comprar ações de duas empresas, a Txai Turismo e a Txai Hotéis, que pertencem a parentes de Márcio Moraes. |
| A companhia tem três frentes de projetos. Na primeira delas, a idéia é desenvolver resorts de uso misto, com hotéis e também casas a serem usadas com “segunda residência” por estrangeiros. A frente chamada de negócios relacionados ao turismo poderá englobar parques ecológicos e parcerias público-privadas para construção de aeroportos e marinas, por exemplo. Em turismo de negócios, o plano é erguer hotéis urbanos com centros de convenções. |
O conselho de administração ideal de uma empresa
| A perpetuidade da companhia deve ser o grande objetivo de seus administradores. Cabe ao conselho de administração – como representante dos acionistas – fazer com que a empresa aproveite as oportunidades e cumpra com suas obrigações junto aos seus representados, clientes, fornecedores, colaboradores e comunidades nas quais atua. Para que o conselho atue de forma eficiente e eficaz, não basta seguir o que dizem os legisladores ou os códigos de melhores práticas de governança corporativa. É preciso ir além. |
| Neste momento, em que as empresas brasileiras realizam suas assembléias anuais de acionistas e muitas fazem eleições de integrantes para o conselho de administração, vale a pena refletir sobre os fatores que levam um conselho a desempenhar plenamente seu potencial. |
| Podemos começar com uma breve avaliação do conselho de uma empresa. Algumas questões são: |
| 1) Será que os conselheiros estão conscientes de suas responsabilidades e dos desafios da empresa? |
| 2) Os conselheiros conhecem bem as variáveis-chaves do desempenho da empresa e os riscos envolvidos? |
| 3) O conselho tem dedicado tempo considerável para discutir os objetivos de longo prazo da empresa e as estratégias para atingi-los? |
| 4) O conselho periodicamente revisa a estrutura organizacional, o desempenho dos executivos, a política de Recursos Humanos e analisa a necessidade de eventuais mudanças para o futuro? |
| 5) O conselho recebe no momento apropriado as informações para ter certeza que está no controle da empresa e dos executivos? |
| 6) O conselho tem tempo e conhecimento suficientes para analisar e tomar decisões difíceis? |
| 7) Os conselheiros têm independência para tomar decisões? |
| Se a resposta for negativa para algumas destas perguntas, é melhor pensar em criar um novo conselho. |
| Definir a função é o primeiro passo para se ter um conselho efetivo. As três principais funções do conselho são: monitorar, decidir e aconselhar. O conselho deve monitorar o desempenho da empresa e de seus executivos. Infelizmente, a maioria dos conselhos de empresas brasileiras gasta boa parte de suas reuniões analisando o desempenho passado, ao invés de discutir o futuro. |
| Os assuntos que envolvem decisões importantes devem vir em primeiro lugar na agenda das reuniões. O conselho deve tomar as decisões que implicam em planos ou ações de alto impacto para a empresa. Ele também deve ter condições de aconselhar o presidente executivo (CEO), que ocupa uma posição solitária e precisa do órgão para compartilhar suas idéias e solucionar os problemas. Para definir seu papel, os conselheiros devem se perguntar: 1) o que pretendemos atingir? 2) o que é realista considerando nosso conhecimento e disponibilidade de tempo? 3) qual é a nossa proposta de criação de valor para empresa e acionistas? |
| Quando o papel está definido, o desafio se torna o desenho e a montagem da estrutura. Neste instante, é importante se pensar sobre o tamanho ideal, o “mix” entre conselheiros internos e externos, a criação de comitês e a separação de funções entre o presidente do conselho (chairman) e o presidente executivo (CEO). A situação da empresa, a complexidade de seu setor de atuação, o estilo e a competência do conselho ajudarão a definir o grau de dedicação necessária de cada conselheiro e o número de integrantes. |
| Enquanto a estrutura é importante e a melhor forma de iniciar a montagem de um conselho. É fundamental escolher e manter as pessoas certas. No Brasil, já passamos pela fase dos “conselhos de compadres”, mas ainda temos muitos “conselhos de notáveis”, com objetivos mais institucionais do que propriamente de criação de valor. No entanto, temos assistido nos últimos anos uma crescente profissionalização dos conselhos de administração, com a presença de executivos independentes que têm um envolvimento construtivo e contribuem para a realização dos resultados da empresa. |
| O último passo é procurar tirar o máximo proveito do conselho. Para tanto, é importante: utilizar o tempo dos conselheiros mais produtivamente; fornecer informações com qualidade e no prazo adequado; encorajar o foco nas questões mais importantes; desenvolver processos que facilitem o monitoramento; e tirar maior proveito das reuniões (menos Power Point e mais discussões!). No mínimo 50% do tempo das reuniões deve ser dedicado para discussões com os principais executivos sobre as questões relevantes que afetam os negócios da empresa. |
| O conselho de administração realmente criará valor se estiver alinhado com as melhores práticas de governança corporativa, com uma clara definição de seu papel, uma estrutura apropriada, com as pessoas certas e processos que permitam extrair o máximo de cada conselheiro. |
| Paulo Conte Vasconcellos é conselheiro profissional e sócio da ProxyCon Assessoria e Participações |
| E-mail paulo@proxycon.com.br |
Do petróleo à informação
| O xeque Yamani, ex-ministro do Petróleo da Arábia Saudita e um dos arquitetos fundadores da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), disse certa vez: “A idade da pedra chegou ao fim não por falta de pedras, e a era do petróleo terminará, mas não por falta de petróleo”. Os humanos deixaram de usar pedras porque o bronze e o ferro são materiais superiores. Mas será que realmente deixaremos de consumir petróleo quando outras tecnologias energéticas também proporcionarem benefícios mais vantajosos? |
| A ameaça de esgotamento dos escassos recursos energéticos mundiais mantém-se muito presente na percepção pública desde os choque do petróleo da década de 70. E nosso temor também não se limita ao petróleo. Por exemplo, o clássico best-sellers “Limites ao Crescimento”, publicado em 1972, previa que o mundo teria esgotado seu ouro em 1981, a prata e o mercúrio em 1985, e o zinco em 1990. Agora temos a vantagem da visão retrospectiva, porém mesmo hoje a maioria das discussões sobre o tema são baseadas na lógica de “Limites ao Crescimento”. |
| Além disso, a questão não se resume ao fato de não termos esgotado nossos recursos naturais. O economista americano Julian Simon supostamente lançou um desafio em 1980 a um grupo de ambientalistas, dizendo que se fosse o caso de a escassez ser mensurada em termos de encarecimento das commodities, eles deveriam investir em ações de companhias envolvidas no processamento de qualquer minério. Esses ambientalistas aplicaram seu dinheiro em cromo, cobre, níquel, estanho e tungstênio e decidiram-se por um prazo de 10 anos. Em setembro de 1990, o preço de cada um desses metais tinha caído: o cromo em 5%, o estanho em fantásticos 74%. |
| Os arautos do apocalipse perderam a aposta. O mais importante é que eles não poderiam ter ganho, mesmo se tivessem investido em petróleo, alimentos, açúcar, café, algodão, lã, minerais ou fosfatos: todas essas commodities tinham ficado mais baratas. |
| Hoje, o petróleo é a mais importante e valiosa commodity comercializada internacionalmente, e sua importância para nossa civilização é ressaltada pela preocupação recorrente com que estejamos esgotando as reservas. No entanto, as estimativas estatísticas de seu esgotamento ocultam muito mais do que revelam. Um campo petrolífero típico produz apenas 20% do reservatório, sendo que perto de 63% permanece no subsolo mesmo quando são usadas as tecnologias mais avançadas. |
| Além disso, os economistas sustentam que o consumo energético per capita está em queda, devido a seu uso mais eficiente. As eficiências no consumo de combustível no setor automobilístico cresceram mais de 60% nas últimas três décadas, ao passo que a riqueza em geral produzida por unidade de energia dobrou durante o mesmo período. |
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Mais de 80% do consumo de energia gerada pelo petróleo, seja na forma de eletricidade ou combustível, são usados em transportes casa-trabalho |
| Mas, embora os preços dos metais tenham caído, o preço do petróleo está atingindo altas recordes. A razão é simples: o emprego dos metais foi substituído por muitas alternativas, mas a maioria dos finalidades ainda necessita derivados de petróleo como insumos, e muitas décadas de esforços para desenvolver suficientes fontes alternativas de energia produziram escasso sucesso. |
| Portanto, sendo os substitutos para o petróleo não facilmente disponíveis, as sociedades modernas deveriam concentrar-se nas fontes de demanda, a maioria das quais é atribuível ao setor de transportes. De fato, mais de 80% do consumo de energia gerada pelo petróleo nas sociedades contemporâneas, seja na forma de eletricidade ou combustíveis, são usados em transportes casa-trabalho. Será todo esse consumo de petróleo realmente necessário? |
| Com a crescente contribuição do setor de serviços para o Produto Interno Bruto (PIB) mundial, agora é o momento para reavaliar a necessidade de viajar para o trabalho. Os trabalhadores no setor de serviços movimentam-se entre casa e trabalho diariamente apenas para estarem presentes num ambiente que não tem necessidade econômica deles, pois esses trabalhadores estão facilitando muito mais um intercâmbio de informações do que a troca de bens físicos. Será que realmente necessitamos reunir fisicamente tantas pessoas para tão pouco ganho e a custos tão altos? |
| O custo não é apenas em termos de recursos naturais, que deveriam ser sustentáveis e legados a gerações futuras – e não exauridos por nossa própria geração. O aumento na quantidade de tempo gasto entre casa e trabalho é um freio tanto à produtividade nacional como à qualidade de vida nas cidades modernas. Uma pesquisa realizada na cidade indiana de Bombaim revelou que a viagem ferroviária diária média entre casa e trabalho é de 22 quilômetros, e sua rápida urbanização, assim como em grande parte do mundo em desenvolvimento, provavelmente resultará no alongamento dos deslocamentos urbanos diários. |
| Analogamente, o transporte aéreo de passageiros é dominado pelas viagens a negócios. Mas em vista da capacidade de transmissão de dados em alta velocidade das atuais tecnologias de telecomunicações e informação, hoje é possível reduzir substancialmente as viagens a negócios. Se, por um lado, o fenômeno da terceirização para o exterior está atenuando a necessidade de migração da mão-de-obra, a migração doméstica pode ser limitada ainda mais mediante o uso de escritórios domésticos, que poderão reduzir as pressões de demanda sobre o solo urbano, as redes de transportes públicos, a rede viária e aeroportos. Futuramente, as viagens humanas em geral deverão limitar-se cada vez mais a viagens de turismo e passeio. |
| Hoje dispomos da infra-estrutura tecnológica para levar a maior parte das informações relacionadas ao trabalho até os trabalhadores, permitindo que eles trabalhem em íntima associação. Isso exige uma mudança no estilo de vida – uma mudança que os governos deveriam começar a incentivar empregadores e trabalhadores a assumir. |
| Se o fizerem, a era do petróleo não terminará. Mas a era da preocupação com sua escassez talvez tenha fim. |
| Karuna Raman é vice-diretor geral associado da BSNL, uma estatal indiana no setor de telecomunicações. © Project Syndicate 2006. www.project-syndicate.org |
