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Bom Gosto é nova bilionária do leite

domingo, abril 13th, 2008

Laticínio do Rio Grande do Sul criado há 15 anos pelo veterinário Wilson Zanatta deve faturar R$ 1 bilhão em 2009

Patrícia Cançado

 

Por alguns anos, todas as quartas-feiras o veterinário Wilson Zanatta acordou de madrugada, entrou na boléia de um pequeno caminhão e dirigiu 350 quilômetros para vender queijos em Porto Alegre. Daqueles tempos – década de 90 -, Zanatta ainda mantém o hábito de acordar muito cedo e de rodar longas distâncias na estrada a bordo de seu utilitário. Já sua empresa, a Laticínios Bom Gosto, mudou radicalmente. Ela tem hoje uma frota de 150 caminhões captando 2 milhões de litros de leite por dia e entregando mercadorias em seis Estados do País. “Eu ainda tenho uma queda por caminhões, mas só dirijo de vez em quando, para fazer manobra no pátio”, conta o empresário.

A empresa de Tapejara, cidade de 16 mil habitantes no norte do Rio Grande do Sul, já disputa o quinto lugar do ranking brasileiro de laticínios, atrás da Nestlé, Perdigão, Itambé e Parmalat. Criada há 15 anos, ela é uma das mais novas dessa indústria – a maioria das outras de mesmo porte surgiu no mercado há pelo menos três décadas. É também uma das que crescem mais rápido. Em 2000, seu faturamento bruto era de R$ 5 milhões. Neste ano, o número pode chegar a R$ 770 milhões, quase 160 vezes maior. O empresário prevê faturamento de R$ 1 bilhão no próximo ano.

Quando perguntam como conseguiu o feito, Zanatta, de 47 anos, não faz rodeios: “Eu só cresci fazendo dívida em banco. A rentabilidade do setor não permite investimentos.” O negócio do leite é de margens baixas, que raramente passam de 10%. No ano passado, ele não tomou empréstimos porque vendeu 23% da sua empresa para o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O dinheiro novo pagou as velhas dívidas e deu fôlego para a Bom Gosto iniciar uma série de aquisições de concorrentes.

Em nove meses, a empresa gastou R$ 100 milhões na compra de três laticínios: um no Rio Grande do Sul (Fazenda Vila Nova) e dois em Minas Gerais (Damatta e Sarita). A última compra foi anunciada no começo deste mês. “Eu abri mão de algumas vaidades para crescer. A maioria dos empresários não admite ter um sócio”, diz Zanatta. “Por algum tempo, até tive dinheiro aplicado. Esse nem parecia eu”, brinca.

Bisneto de imigrantes italianos e filho de produtor de leite, ele começou o negócio do zero ao lado da mulher, Miria, e outros quatro funcionários. Vendeu os dois carros que tinha para comprar uma Kombi e um caminhão, pegou um financiamento no banco para pagar as máquinas e comprou uma caldeira enferrujada. “Passei um fim de semana inteiro tirando a ferrugem e pintando a caldeira”, lembra, ao rever um álbum de fotografias que fica na bancada da sua nova sala, que ainda cheira a cola de madeira.

Zanatta é um homem destemido, que parece ignorar os altos e baixos desse negócio. Depois de viver dois anos de fartura – em 2003 e 2004 – graças à crise da Parmalat, o empresário decidiu pegar um empréstimo de US$ 10 milhões para comprar um concentrador de leite, máquina holandesa de 18 metros de altura que, segundo o empresário, só a Nestlé tem no Brasil.

Na época, a mulher pediu para ele desistir da empreitada. O valor da dívida era mais de 10% do faturamento da Bom Gosto. “Foi um ano crítico. Achei que não fosse dar certo. Eu me vi muito endividado e com resultado muito ruim”, lembra.

No ano seguinte, a indústria provou uma combinação indigesta: o desequilíbrio entre a oferta e a demanda. “A produção cresceu muito rápido, mas a demanda interna continuou crescendo a passos lentos. O preço do litro de leite despencou”, diz o chefe da assessoria técnica da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg), Rodolfo Oliveira.

ALVO

Em 2007, veio a virada. A Bom Gosto tornou-se centro das atenções. Segundo informações de mercado, foi sondada pela Perdigão, antes desta comprar a Eleva, pela Parmalat e pela GP Investimentos. Um dos interessados chegou a fazer uma proposta. O objetivo era juntar a Bom Gosto com outro laticínio para criar uma grande empresa do setor e levá-la à bolsa de valores.

O empresário optou pelo banco público (BNDES), mas gostou do plano de ir à bolsa, o que está programado para 2010. A empresa está se preparando para o processo de abertura de capital. Na semana passada, os auditores da BDO Trevisan eram os últimos a deixar o prédio. Eles estavam terminando de fechar o balanço da companhia, uma das exigências para o IPO, a oferta inicial de ações.

INTERNACIONALIZAÇÃO

Antes da estréia no pregão, a Bom Gosto pretende inaugurar outro ciclo: a internacionalização. O primeiro passo será a construção de uma fábrica no Uruguai, na cidade de San José de Mayo, prevista para entrar em operação no ano que vem. A unidade servirá como base para exportação de produtos lácteos. “Eu tentei comprar algum laticínio no Uruguai, mas não gostei do que vi”, diz o empresário, que é recebido pelos ministros da Economia e da Agricultura quando vai ao país.

A Bom Gosto é o primeiro laticínio brasileiro com fábrica fora do País. O raciocínio por trás dessa estratégia é o mesmo que orientou os grandes frigoríficos brasileiros, que hoje controlam o abate de carne no país vizinho. “O leite uruguaio tem mais qualidade que o brasileiro e é mais bem recebido no exterior”, justifica Zanatta.

O empresário, cujo hobby é a prova de laço nos rodeios, anda freqüentando aulas de inglês (no começo em grupo e agora individuais) e feiras de alimentos em Dubai, China e Europa. “Eu vou lá com meus folders e meto a cara. Fico só absorvendo o que diz o pessoal do Bertin e do Friboi.”