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Archive for the ‘Mundo Financeiro’ Category

Salvem os bancos pequenos

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Salvem os bancos pequenos

Por Jairo Saddi

No fim do ano passado, o governo editou medidas de corte da remuneração de compulsório com o objetivo de estimular o modelo dos bancos pequenos. Com o recrudescimento da crise, o advento do Banco PanAmericano, que prejudicou a venda de carteiras, e as evidentes necessidades de funding, essas instituições poderiam enfrentar dificuldades no médio prazo. Realmente, foi necessário agir e o Banco Central acertou na medida.

No entanto, é preciso alargar o debate. Há dois aspectos que nos parecem relevantes nessa discussão: primeiro, quanto à concentração do sistema financeiro, e, segundo, quanto ao papel dos bancos pequenos no mercado, sua importância relativa e relevância no processo.

No que diz respeito à concentração bancária no Brasil, os maiores bancos privados detêm mais de 67% dos ativos de todo o sistema financeiro. Considerando o sistema como um todo, o setor público responde por 28% e o privado, por 53% (e os bancos estrangeiros, por 18%). Assim, podemos inferir que quase 80% dos ativos privados estão concentrados em cinco instituições financeiras privadas, sendo todos bancos. Se aplicado outro critério, o de patrimônio líquido, verifica-se um índice igualmente preocupante: 85% do total do patrimônio líquido do sistema financeiro nacional está concentrado em dez instituições privadas. Se a concentração dos bancos no sistema financeiro tende a aumentar, o processo de downsizing, ou seja, a redução da representatividade do sistema financeiro no Produto Interno Bruto (PIB), também tende a se intensificar. Apenas para dar um exemplo, em 1993, último ano antes do Plano Real, o sistema financeiro era responsável por 15% do PIB. Em 1996, essa participação caiu para 8,3% e hoje está em torno de 3% (2010).

Se elevar concentração bancária, a queda da participação do sistema financeiro no PIB tende a se intensificar

A necessidade de proteção à poupança popular e os efeitos do multiplicador de moeda fazem com que, além de importante variável macroeconômica, o sistema financeiro exija pesada regulamentação como atividade intermediadora de recursos. Portanto, a concentração bancária e os movimentos ligados à concorrência entre os bancos são de interesse especial do Estado para obter os fins maiores de sua política econômica, por meio da expansão ou contração dos meios de pagamento.

Por sua vez, a quebra de um banco significa um grande transtorno público aos pequenos depositantes de boa-fé, e é natural que o Estado procure, por todas as formas, evitar que um banco que se tornou ilíquido contamine os demais do setor. É evidente que, quanto maior o banco (e maiores os interesses envolvidos), maiores serão os riscos de sua quebra.

Sabendo disso, muitos bancos que já estão com dificuldades podem se engajar em operações de alto risco, o que ficou conhecido na doutrina econômica como o problema da “moral hazard”. Em decorrência desse fato, a doutrina econômica passou a analisar outra tese, a do “too big to fail” (grande demais para quebrar), na qual bancos grandes, por apresentarem risco sistêmico forte, são impedidos pela autoridade monetária de ser liquidados. Assim, a concentração bancária – inevitável nos dias de hoje – apresenta algumas desvantagens consideráveis.

Bancos pequenos sólidos – e ressalte-se aqui que as exigências de capital mínimo para abrir um banco no Brasil são as mais elevadas do mundo, o que não impede bancos de cometerem imprudências – são fundamentais ao sistema, já que podem oferecer uma alternativa à concentração e às dificuldades expostas acima. Em outros países, longe de nossa realidade, o caso é, todavia, emblemático. Lá, sólidos bancos pequenos oferecem uma alternativa à concentração e, mesmo depois da crise de 2008-09, buscam nichos de atuação. Além disso, bancos pequenos, ou butiques financeiras, podem propiciar uma grande diferenciação de canais de distribuição, por se destacarem com serviços e produtos personalizados.

Finalmente, os ganhos de escala em bancos de grande porte – rede de agências, estruturas e amplitude de produtos – fazem com que seja difícil a um banco menor se tornar o único banqueiro do cliente, mesmo que exista o argumento de que, no banco menor, privilegiam-se mais a confidencialidade e as soluções personalizadas.

Para abrir um banco é necessário um projeto de viabilidade que combine competência, capital e idoneidade. Um banqueiro pequeno pode ter tudo isso com a vantagem de oferecer um relevante serviço ao sistema financeiro nacional em matéria de concorrência.

Jairo Saddi, pós-doutor pela Universidade de Oxford, é professor de direito do Insper.

Direct Edge chega para desafiar BM&F

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Por Vinícius Pinheiro | De São Paulo

Jin Lee/Bloomberg/Jin Lee/BloombergEmpresa espera iniciar operações no quarto trimestre de 2012, diz O’Brien

Uma novo concorrente estrangeiro tem planos de quebrar a hegemonia da BM&FBovespa no mercado brasileiro de negociação de ações. Após a Bats Global Markets anunciar no início deste ano a intenção de atuar no país, a Direct Edge, responsável por 10% do volume de ações negociado no mercado americano, oficializa nesta segunda-feira os planos de criar uma bolsa alternativa no Brasil.

O objetivo da companhia é dar início às operações no quarto trimestre de 2012, após obter todas as aprovações regulatórias, disse ao Valor, por telefone, o presidente da Direct Edge, William O’Brien. A unidade brasileira, que terá sede no Rio de Janeiro, deve ser a primeira fora dos Estados Unidos. A empresa vem estudando o mercado nacional há um ano e meio, segundo o executivo.

Criada em 1998 como uma plataforma de negociação, a Direct Edge começou a atuar como companhia independente em 2007 e, no ano passado, obteve aprovação da SEC (a comissão de valores mobiliários americana) para operar como bolsa de valores. Entre os sócios da empresa estão pesos-pesados do setor financeiro, como o Goldman Sachs e o J.P. Morgan, além de International Securities Exchange, Knight Capital e Citadel Derivatives Group.

De acordo com O’Brien, a Direct Edge negocia diariamente em torno de US$ 27 bilhões, o que representa mais de seis vezes o volume médio da BM&FBovespa. Apesar das cifras menores, o executivo vê potencial local. “Enxergamos uma grande oportunidade no Brasil, que possui uma comunidade financeira sofisticada e uma estrutura regulatória que permite a entrada de um competidor”, diz.

A chegada de concorrentes provoca reação da BM&FBovespa. Na semana passada, em entrevista ao Valor, seu presidente, Edemir Pinto, qualificou os concorrentes como “oportunistas”, dispostos apenas a “beliscar” um pedaço do mercado e depois ir embora.

Ao contrário do Brasil, onde a BM&FBovespa é a única instituição autorizada a atuar como bolsa, o mercado americano é altamente fragmentado. Além das bolsas autorizadas a funcionar, algumas corretoras desenvolveram sistemas próprios de negociação.

A principal barreira de entrada para plataformas concorrentes de negociação no país é a falta de alternativas para os sistemas de liquidação (clearing) e custódia de ativos. A bolsa brasileira, que possui a CBLC, trabalha com um sistema integrado, e não abre mão da exclusividade nesse serviço.

Edemir Pinto contou que foi sondado pela Direct Edge, mas descartou uma possível parceria. O’Brien confirma o encontro, mas diz que a recusa da bolsa não abalou os planos para o país. “Estamos em busca de alternativas para a clearing, que esperamos anunciar em breve”, afirma.

Ao se instalar no Brasil, a Direct Edge está de olho não apenas no mercado da BM&FBovespa como também das operações que hoje são realizadas no exterior, via American Depositary Receipts (ADRs, recibos de ações, na sigla em inglês). “Acreditamos que podemos atrair para o Brasil parte dos negócios que hoje são feitos em Nova York”, afirma.

Por enquanto, ainda não há planos para uma equipe local de direção da Direct Edge. A companhia avalia ainda a possibilidade de atuar com um parceiro local, nos moldes da Bats, que se uniu à gestora de recursos Claritas. O escritório de advocacia Demarest e Almeida Advogados é o assessor legal da companhia no país. O lançamento oficial da Direct Edge Brazil acontece em evento marcado para o próximo dia 29, no Rio. (Colaborou Daniele Camba)

Credit Suisse lança bolsa de longo prazo

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Por Bloomberg

Brendan Smialowski/Bloomberg/Brendan Smialowski/BloombergMathisson: ideia é abrir mão das operações de alta frequência e criar um mercado voltado para investidor de longo prazo

A Credit Suisse Securities, a corretora de valores que administra o maior “dark pool” (bolsa informal) de ações do mundo, começará a operar um mercado de ações até o fim de março, segundo informou Dan Mathisson, presidente da unidade de negociações eletrônicas da firma.A praça, chamada Light Pool, será a primeira rede eletrônica de comunicações (ECN na sigla em inglês) dos Estados Unidos a ser iniciada em cinco anos. A ECN será voltada para investidores institucionais como fundos mútuos, fundos de hedge, fundos de pensão e fundos de doações. Ao contrário das bolsas existentes, a Light Pool vai empregar um sistema para classificar os usuários pela maneira como eles negociam, como meio de estabelecer os preços e manter afastados os especuladores indesejados.

A unidade do Credit Suisse Group está lançando a praça enquanto executivos do setor e alguns investidores criticam a fragmentação dos mercados entre as 13 bolsas de valores existentes nos Estados Unidos, 3 redes de comunicações eletrônicas (ECNs) e mais de 40 dark pools, que são plataformas privadas administradas por corretoras para negociar ações sem a revelação de ofertas de compra e venda. Uma ECN é um sistema de computadores que comparam ordens de compra e venda e compete com a Bolsa de Valores de Nova York (NYSE) e com o mercado de ações da Nasdaq.

“Há uma necessidade real de um novo tipo de mercado exposto em que todas as regras sejam estabelecidas tendo em mente os investidores de longo prazo”, disse Mathisson. As operações de alta frequência, que englobam as estratégias conduzidas por computadores e cujo ponto em comum é a rápida apresentação e execução das ordens, respondem por pelo menos metade de todo o volume de ações negociado nos Estados Unidos, segundo a Securities and Exchange Commission (SEC). “Nossa ideia é abrir mão dessa parcela do mercado e criar um mercado de nicho com regras voltadas para os investidores de longo prazo”, disse ele.

A automação e a competição crescentes já reduziram as participações da NYSE e da Nasdaq nos negócios com ações que elas listam em até 80% na última década. Agora, menos de 30% dos negócios ocorrem em suas principais bolsas, uma vez que as ordens estão dispersas por mais de 20 praças concorrentes, quase todas totalmente eletrônicas. Vinte anos atrás, menos de 10 bolsas competiam pela maior parte dos negócios com ações nos EUA.

As firmas que não conseguirem atender os padrões voltados para a proteção dos investidores de longo prazo não poderão participar diretamente da praça do Credit Suisse, disse Mathisson, presidente do grupo de Serviços de Execuções Avançadas da corretora, formado por 250 pessoas. O Crédit Suisse vai subsidiar a ECN, que não deverá ser lucrativa inicialmente, como um serviço aos seus clientes institucionais, afirmou Mathisson.

A Light Pool foi construída com a mesma tecnologia usada no Crossfinder, o dark pool da corretora. Esse sistema negociou 2,8% do volume de ações movimentado nos EUA, quase o mesmo tanto que os outros dois maiores sistemas – o Sigma X do Goldman Sachs de Nova York, e o Getco Execution Services de Chicago – juntos, segundo um relatório divulgado em 21 de dezembro pela corretora Rosenblatt Securities.

Algumas ordens poderão ser transferidas do dark pool para o novo mercado, mas a Light Pool vai aumentar o volume geral negociado pela corretora Crédit Suisse, afirma Dmitri Galinov, diretor de estratégias de liquidez, que supervisiona a negociação de produtos incluídos nessas plataformas. A Credit Suisse começou a testar a Light Pool no mês passado, com vários clientes negociando ações da General Electric (GE). Na semana passada ela ampliou os negócios para uma dezena de ações.

O desenvolvimento da Light Pool começou há um ano, como uma proteção contra potenciais restrições reguladoras aos dark pools. Os executivos-chefes de operadoras de bolsas como a NYSE Euronext de Nova York e a Nasdaq OMX Group vêm exortando a SEC a impor mais exigências aos dark pools, que cresceram a ponto de responder por mais de 12% dos negócios com ações em novembro, contra menos de 9% há dois anos, segundo mostram dados da corretora Rosenblatt.

Como suas preocupações regulatórias diminuíram em 2010, o Crédit Suisse mudou seu foco para a criação de um mercado público exposto para os investidores institucionais que temiam não estar conseguindo execuções adequadas nas bolsas que atendem firmas de alta frequência.

A ECN poderá eventualmente conseguir uma participação de mercado de “uns poucos pontos porcentuais”, mas o objetivo não é construir uma concorrente para a NYSE ou outros mercados, afirma Mathisson. O objetivo é reduzir o que os operadores chamam de seleção negativa, ou a possibilidade dos clientes terem ordens executadas quando o mercado estiver se movimentando contra eles, banindo certos usuários e eliminando ordens e práticas que agradam as firmas de alta frequência.

“O foco está na minimização do vazamento de informações”, diz Galinov. “Queremos incentivar as ordens de limite na Light Pool, reduzir a seleção negativa e o número de vezes que os clientes são alvejados por outros operadores.”

Nos últimos anos, as bolsas vêm competindo por volume com as firmas de alta frequência como a Getco LLC, a Tradebot Systems e a Hudson River Trading, que substituíram muitos formadores de mercado tradicionais, expulsos pela automatização crescente e pelos incrementos de cotação de um centavo, em vez de oitavos de dólar.

A competição das firmas de volumes elevados, que perseguem uma série de estratégias que dependem da velocidade, vem ocorrendo às custas dos investidores de longo prazo, que negociam com participantes que oferecem liquidez mesmo enquanto tentam evitar aqueles que tendem descobrir quais instituições estão comprando ou vendendo, diz Mathisson.

A Bats Global markets de Kansas City (Missouri) e Jersey City e a Direct Edge Holdings de Nova Jersey, que operam duas bolsas cada, começaram como ECNs antes de se transformarem em bolsas. A Light Pool não tem planos de se tornar uma bolsa, em parte porque a SEC exige que corretoras donas de bolsas mantenham sua participação abaixo de 20%, explica Mathisson.

A Bats, que começou a operar em 2006, é controlada por um consórcio de 11 bancos e firmas que negociam carteiras próprias, enquanto a Direct Edge é controlada principalmente pela Knight Capital Group de Nova Jersey, Goldman Sachs, Citadel e International Securities Exchange de Nova York, a terceira maior bolsa de opções dos EUA. A Bloomberg LP, controladora da Bloomberg News, opera uma ECN, assim como o Citigroup.

A Credit Suisse superou corretoras concorrentes ao reivindicar quase 9% dos negócios com ações realizados por clientes institucionais nos EUA, com base nas comissões pagas por ação, segundo consta em um relatório divulgado em junho pela Greenwich Associtates, uma firma de pesquisas de Stamford, Connecticut. A companhia também é uma das cinco principais fornecedoras de algoritmos para 69% das administradoras de ativos que participaram de uma pesquisa conduzida pela Tabb Group de Nova York e divulgada em dezembro.

Os clientes da corretora e firmas que acessarem a Light Pool serão classificados automaticamente, com base em um período inicial de comportamento das negociações e inseridos em uma de três categorias: colaboradores, usuários neutros e operadores oportunistas. Galinov diz que o critério de definição de uma firma será automatizado e objetivo, “sem nenhuma intermediação humana”, que é exigida para os mercados públicos. O objetivo é determinar se as firmas estão lucrando sistematicamente com seus negócios de maneira que isso possa afetar os clientes institucionais, continua ele.

As firmas oportunistas, que segundo Galinov incluem algumas companhias de negociações de alta frequência, serão excluídas da plataforma e impedidas de apresentar ordens ou executar programas de computador contra ofertas de compra e venda diretamente pela Light Pool. Em vez disso, elas terão que usar a National Stock Exchange de Jersey City, onde a Light Pool também divulgará suas cotações.

As ECNs precisam tornar públicas suas cotações, através de uma bolsa registrada como a NSX, ou uma plataforma operada pela Financial Industry Regulatory Authority. Como as negociações na Light Pool serão mais caras e lentas para essas firmas, elas provavelmente não usarão a ECN, reduzindo a experiência de seleção negativa dos investidores, afirma Galinov.

Os colaboradores, que incluirão os investidores de longo prazo, receberão um desconto “significativo” quando negociarem contra ordens que estiverem paradas na Light Pool, enquanto as firmas neutras, ou aquelas cujos comportamentos ficaram abaixo dos de outros grupos, poderão ou não receber descontos, diz Galinov

Embora a formação dos preços ainda não tenha sido finalizada, ele diz que os descontos para os colaboradores que tomarem liquidez poderão ser os maiores do setor – atualmente de 14 centavos de dólar por 100 ações na Chicago Board Options Exchange e na Nasdaq OMX BX.

Motivadas pelas ECNs uma década atrás, as maiores bolsas de valores dos EUA vêm adotando programas de formação de preços que recompensam as corretoras por elas inserirem propostas de compra e venda em suas plataformas, depois que anos de reformas reduziram a lucratividade da atividade de formação de mercado. Computadores mais potentes e medidas como a formação de preços das ações em incrementos de centavos, reduziram o spread dos preços que antes compensava os profissionais pelo fornecimento de liquidez, estimulando as bolsas a darem descontos para as corretoras que realizam uma função similar através de estratégias de alta velocidade.

Oferta na casca

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Ana Paula Ragazzi | De São Paulo
15/02/2011

As pequenas e médias empresas brasileiras, esquecidas na retomada recente de ofertas de ações no mercado doméstico, começaram a receber uma oferta tentadora: abrir o capital nos Estados Unidos.

Butiques e bancos de investimento internacionais, com ajuda de bancos médios no Brasil, estão vendendo o APO (oferta pública alternativa, na sigla em inglês) no lugar do IPO, jargão do mercado financeiro para oferta pública inicial.

Nos últimos três anos, essa operação tem sido muito comum entre companhias de pequeno porte da China e da Índia, que passaram a negociar ações nas bolsas americanas.

O primeiro passo é fundir a empresa de capital fechado com uma companhia de capital aberto dos Estados Unidos, geralmente não operacional, em sua maioria de capital de risco.

Essas “empresas-cascas” existem em grande quantidade no mercado americano, registradas em segmentos diferenciados, como o de pequenas e médias da bolsa eletrônica Nasdaq ou da American Stock Exchange (Amex), ou no chamado mercado de balcão.

Na operação, a companhia americana passa a ser a dona da brasileira, mas o acionista da empresa do Brasil fica sendo o dono da companhia americana.

Um aumento de capital com integralização de ações é realizado e, como exemplo, os brasileiros ficam com 95% da companhia, enquanto os acionistas iniciais detêm 5% – futuramente, eles podem vender a fatia e sair do negócio.

A partir de então, os bancos que estão fazendo a operação passam a trabalhar para promover uma oferta privada de ações da companhia. O próximo passo são as reuniões com investidores, nas quais será acertada a capitalização. Nesse momento, o controle permanece em mãos do acionista brasileiro, mas sua fatia é diluída, para um percentual perto de 75%, por exemplo.

Estão olhando para o Brasil o banco de investimento Rodman & Renshaw e a Halter Financial Group que já tem quatro executivos trabalhando em São Paulo.

Além deles, o banco BVA já apresenta a opção para as mais de 400 companhias de sua carteira de clientes.

Podem ser candidatas à operação empresas com faturamento anual entre R$ 100 milhões e R$ 500 milhões. É imprescindível que tenham balanços auditados e revistos, por um período de três anos, por uma empresa internacional. A captação, via oferta privada, varia de US$ 20 milhões a US$ 30 milhões, em média

Depois de feita a colocação, os agentes cuidam da vida inicial da companhia como empresa aberta. Fazem relatórios de cobertura, assessoram no relacionamento com investidores e aprimoram aspectos de governança, nos moldes dos trabalhos feitos pela bolsa brasileira no Bovespa Mais, mercado de acesso para pequenas e médias.

Nos últimos três anos, mais de 300 empresas indianas e chinesas lançaram mão dessa alternativa para serem negociadas nas bolsas americanas.

Artigo veiculado em janeiro na revista “The New Yorker” descreve a operação como um toque de mágica. “[As empresas chinesas] unem-se a cascas, mudam o nome, e ‘presto’ (como diria Merlin), estão listadas na Nasdaq ou na Amex “, diz o texto.

O ponto de crítica, reforçado pelo fato de algumas companhias não terem apresentados bons resultados após abrir o capital, é o fato de essas empresas terem vindo ao mercado sem passar por nenhum tipo de crivo dos investidores, como acontece na tradicional oferta pública inicial de ações.

Ruy Ramos de Toledo Piza, chefe da área internacional do BVA, reforça que as brasileiras serão avaliadas por uma auditoria internacional e terão de apresentar seus balanços conforme as regras contábeis americanas.

As que mais se encaixam à operação são aquelas cujos negócios têm conseguido absorver o forte crescimento da classe C no país, mas, por seu tamanho, só tem acesso a financiamento por meio de crédito bancário.

Segundo ele, na carteira de relacionamento do BVA, há companhias que têm crescido 20% ao ano e já tem um histórico para mostrar. Elas têm ainda controle familiar e governança em estágio inicial.

Uma das vantagens apontadas por essa operação é o fato de a empresa conseguir uma avaliação de preço maior do que se se associasse a um fundo de investimentos em participações. Os “private equities” costumam colocar descontos para entrar nas companhias, entre outras razões, porque não sabem quando haverá uma “janela de liquidez” para poder se desfazer com lucro de sua participação.

Na oferta alternativa, a empresa fica com cotação na bolsa, e terá um preço de mercado e liquidez praticamente imediata.

Marat Rosenberg, sócio Halter Financial Group, diz que a oferta alternativa possibilita à empresa conseguir condições melhores do que o crédito privado que hoje tem acesso no Brasil. Além disso, cria valor para o acionista.

“Essas operações irão impulsionar o crescimento das companhias locais”, diz. Rosenberg afirma que a decisão de iniciar negócios no Brasil foi influenciada por solicitações de seus investidores, que têm interesse em colocar dinheiro no país – a Halter é líder nessas operações na China.

“A percepção é que os fatores econômicos do Brasil são os que puxam os investimentos em todas as empresas emergentes”, diz. A Halter prepara, segundo ele, “algumas operações de companhias brasileiras”.

Piza, do BVA, lembra ainda que, uma vez listada na bolsa americana, a empresa pode seguir vários caminhos. Pode ser alvo de aquisições ou fazer uma oferta de ações subsequente e, nesse caso, já terá uma história de empresa aberta para mostrar ao mercado o que pode levar a uma melhor avaliação.

Uma outra possibilidade, aponta, é optar pela dupla listagem. “Depois de ter acesso ao financiamento e encorpar seu negócio, a companhia pode fazer uma oferta pública no Brasil.”

O BVA já prepara uma operação e tem outras 15 empresas já identificadas como candidatas.

Com relação aos custos, do ponto de vista das companhias, a operação, assessorada pelos bancos, sai por cerca de US$ 750 mil – esse valor inclui arquivamento de documentos na SEC, a CVM americana, advogados, auditores e assessoria para relacionamento com investidores. Além da assessoria legal e fiscal para o empresário brasileiro, que passa a ser dono de uma estrangeira.

Piza explica ainda que nesses níveis intermediários, os custos de registros na SEC são menores do que para uma empresa listada na Nyse. Segundo ele, o a quantidade de exigências da Sarbanes-Oxley são menores.

Para manter-se aberta na bolsa americana, nas contas do executivo do executivo do BVA, o gasto anual é próximo a US$ 250 mil.

O BVA, afirma Piza, mantém conversas com bancos e butiques de investimento americanas. De acordo com o executivo, eles percebem que um parceiro doméstico, que consiga identificar as empresas candidatas no Brasil a concretizar essa operação, faz diferença para fazer o negócio decolar. O BVA avalia a possibilidade de associar-se a um parceiro internacional para atuar nesse segmento.

“Estamos analisando qual será o melhor caminho”, diz.

Entre as vantagens ainda está o fato de a operação ser concluída entre seis e oito meses, se a companhia já tiver balanço auditado. Numa oferta inicial tradicional, esse prazo pode superar um ano.

Investidores ensaiam criação de bolsa alternativa

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Ana Paula Ragazzi | De São Paulo
04/01/2011
Gustavo Lourenção/Valor

Luiz Eduardo Zago, ex-diretor do Itaú, deve ser o executivo a liderar o projeto

Três anos depois de a BM&FBovespatornar-se uma empresa de capital aberto e passar a perseguir o lucro, um grupo de investidores se articula para tentar criar uma bolsa alternativa no Brasil. São recorrentes entre participantes do mercado queixas sobre os altos custos cobrados pela BM&FBovespa.A iniciativa está sendo liderada pela gestora de recursos Claritas. A gestora tem procurado atrair outros investidores para o projeto. Um dos primeiros a ser procurado foi o Deutsche Bank, que já é acionista da Bats Global Markets, uma plataforma eletrônica de negociações com sede nos Estados Unidos. No banco alemão, as conversas estão sendo tocadas no exterior e até o momento não houve uma decisão sobre aderir ou não ao projeto.

O executivo Luiz Eduardo Zago, ex-diretor de custódia do Itaú, já teria sido contratado para comandar os trabalhos. Procurados pelo Valor, Claritas e Deutsche não concederam entrevista. Contatado ontem, o executivo não foi localizado para comentar.

 

A Bats, via assessoria de imprensa, informou que já manifestou no passado que observa vários mercados, inclusive o Brasil, mas que no momento não irá se pronunciar sobre nenhuma oportunidade específica.

O que motiva a inciativa é a percepção de que o mercado brasileiro é muito lucrativo, por ainda estar sob forma de monopólio. Hoje, só é possível comprar e vender ações no Brasil passando pela BM&FBovespa. E a bolsa brasileira, avaliam agentes do mercado, cobra taxas muito altas quando comparadas com as praças globais.

A bolsa doméstica, em termos de valor de mercado, é uma das mais valiosas do mundo. Vale US$ 16,5 bilhões, atrás apenas da bolsa de Hong Kong (US$ 25,75 bilhões) e CME (US$ 21,2 bilhões). No entanto, ao comparar o tamanho do mercado brasileiro com os globais, o doméstico é muito menor em termos de quantidade de negócios e receitas capturadas. A bolsa aqui vale tanto, acredita-se, porque cobra mais caro e opera com margens superiores às das concorrentes. Esse gordo resultado é que teria atraído o interesse de investidores internacionais, inclusive. A BM&FBovespa também não quis comentar o assunto.

O grupo mantém conversas com outros investidores domésticos para avaliar o interesse em participar de uma plataforma alternativa dos negócio. A ideia, para acelerar o processo, é usar a licença operacional da Bolsa de Valores Bahia Sergipe e Alagoas (Bovesba) , que está apta a funcionar, apesar de não ter liquidez hoje. As conversas entre os investidores já se estendem há um ano e, inicialmente, tentaram abraçar a ideia de negociar o Brazilian Depositary Receipts (BDRs) não patrocinados – aqueles que não são lançados pela própria empresa-, que acabaram sendo lançados na própria BM&FBovespa.

O tamanho do mercado é uma grande incógnita para o surgimento de uma nova praça por aqui – a pergunta é se a liquidez seria suficiente para ser dividida entre duas bolsas. Um novo centro de negociação, possivelmente, seria usado por grandes agentes do mercado, para seus negócios no interbancário. Em termos de legislação, a Instrução 461 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), lançada meses antes da desmutualização das bolsas no país, permite a criação de novas bolsas. Os investidores já conversaram com a CVM sobre o assunto e perceberam que a autarquia vê com bons olhos a concorrência no setor. A CVM não concedeu entrevista.

O mercado brasileiro apenas segue um caminho internacional. Quando funcionavam como clubes, as bolsas mundo afora tinhas as corretoras como donas e, por isso, subsidiavam as atividades de seus intermediários. Quando passaram pela desmutualização e, em sua maioria, lançaram ações em bolsa, não só retiraram subsídios como passaram a cobrar por todo o tipo de serviço que oferecem, para apresentar resultados aos seus acionistas. A relação entre as bolsas e os intermediários se modificou, portanto. O que se seguiu à desmutualização foi uma onda de fusões e aquisições entre bolsas no mundo, transformando os negócios em monopólios.

O passo seguinte em mercados mais desenvolvidos – ponto em que o Brasil se encontra agora – foi a união dos bancos para lançar plataforma eletrônicas e forçar a diminuição dos custos de negociação. Surgiram também as chamadas “dark pools”, redes de negociação eletrônica que casam comprador e vendedor anonimamente.

A Bats foi fundada em junho de 2005 e surgiu como uma opção, em particular para os negócios dos grandes bancos, por cobrar taxas menores do que as bolsas. O investimento principal do negócio é em tecnologia. Em seu site, a Bats exalta a qualidade dos serviços que presta a seus clientes e a política de preços agressiva para atraí-los.

Nos Estados Unidos, a Bats é hoje a terceira maior praça de negociação – atrás de Bolsa de Nova York e Nasdaq – e capturou 10% dos negócios com ações naquele país em apenas quatro anos. Na Europa, onde possui um escritório em Londres, a Bats já responde por 10% do que é negociado com o principal índice da bolsa londrina, o FTSE 100, e entre 5% a 6% de todo o mercado na Europa.

Em janeiro de 2008, o Deustche e o J.P. Morgan compraram participações minoritárias na Bats e se juntaram a um grupo de acionistas que inclui nomes como Citi, Credit Suissee Morgan Stanley. Na Europa, uma das plataformas alternativas mais conhecidas é a Turquoise, que nasceu de uma iniciativa de bancos de investimento globais, que desejavam evitar as altas taxas cobradas pelos bolsas europeias, em particular a LSE, praça londrina. Em novembro de 2006, sete bancos, que respondiam por 50% do volume negociado na Europa, informaram a intenção de criar uma bolsa própria. Em outubro de 2007, dois bancos franceses aderiram à ideia e a plataforma de negócios Turquoise foi lançada em setembro de 2008.

O momento seguinte do lançamentos dessas bolsa alternativas pelo mundo foi, novamente, de consolidação. Bolsas compraram plataformas e plataformas se fundiram, conforme dados compilados pela consultoria britânica Mundo Visione, que coleta e analisa dados das bolsas pelo mundo.

Herbie Skeete, diretor da Mondo Visione, diz que uma plataforma alternativa de negócios poderá ter sucesso no Brasil. Ele não descarta ainda a possibilidade de a própria BM&F Bovespa lançar uma espécie de “dark pool”.

“A bolsa australiana lançou uma para inibir a entrada de novos ‘players’ no mercado local”, diz, acrescentando que vários operadores mundiais devem estar atentos às possibilidades de negócios no Brasil, certos de que suas plataformas terão a mesma popularidade obtida nos Estados Unidos e Europa. (Colaboraram Carolina Mandl e Vanessa Adachi)

Setor de tecnologia agita o mercado de balcão nos EUA

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Negócios com ações de empresas famosas, como as do Facebook, prosperam no mercado americano – longe do regulado ambiente das bolsas de valores

A expressão “mercado de balcão” não é novidade para os grandes investidores dos Estados Unidos. Nos últimos dois anos, contudo, o termo deixou de se restringir a publicações especializadas para frequentar as páginas dos principais jornais, revistas e portais de internet. Tudo porque este ambiente de negócios – que engloba operações de compra e venda de ações de empresas que não possuem capital aberto em bolsa – mudou de patamar. Com movimentação prevista de 7 bilhões de dólares para o fechamento do ano, quase 200% a mais que em 2009, o “balcão” está em franca expansão nos EUA. As principais responsáveis são as transações com papéis de companhias estelares do universo da tecnologia, como Facebook, Twitter e Zynga. As estimativas de valor a que chegaram essas companhias – como o próprio Facebook, a rede social de Mark Zuckerberg, hoje cotado em cerca de 100 bilhões de dólares – começaram a levantar desconfianças de que uma ‘bolha’ estaria em formação neste mercado. Especialistas ouvidos pelo site de VEJA, no entanto, refutam essa tese.

No Brasil, o mercado secundário ainda não se tornou uma alternativa disseminada e rentável. Isso porque os empresários brasileiros, diferentemente dos americanos, não têm o hábito de dividir a participação no capital de suas empresas com seus funcionários. “As empresas americanas, a fim de reterem os talentos egressos das universidades, oferecem planos de ações. Assim, o funcionário que fica, no mínimo, entre três e quatro anos na companhia pode, por exemplo, receber um porcentual em ações após sua saída. É uma espécie de prêmio para o funcionário, já que, quando estão no início de seus negócios, elas não podem arcar com salários elevados”, explica Paulo Humberg, especialista em operações de riscos nos mercados privados e presidente da BrandsClub.

Graças a ações de ex-funcionários de empresas do Vale do Silício, na Califórnia, como Facebook, Twitter, Zynga, Groupon, Foursquare, entre outras; o mercado secundário americano gira bilhões de dólares na atualidade. Se, poucos anos atrás, essas empresas não passavam de organizações jovens e amadoras, neste momento elas valem muito. O que espanta é o ritmo deste crescimento. Em oito meses, o valor projetado pelo mercado para a rede social mais popular do mundo saltou de 34 bilhões de dólares para 100 bilhões de dólares. Em um ano, o valor estimado do Groupon – site de compras coletivas – passou de 1,3 bilhão de dólares para 15 bilhões de dólares.

Oportunidades – Como tudo nos Estados Unidos tende a gerar oportunidade de negócio, empresários locais movimentaram-se rapidamente para criar operadoras para intermediar a compra e a venda de ações neste mercado secundário. Uma destas empresas é a SecondMarket. Fundada no final de 2004 pelo investidor americano Berry Silbert, a empresa, que opera somente pela internet, já contabilizou 600 milhões de dólares em transações desde 2009; sendo que 115 milhões de dólares foram movimentados somente no primeiro trimestre de 2011. O negócio, que começou com papéis de empresas de diversos setores, logo se voltou a ações de tecnologia.

“Na virada de 2007 para 2008, um ex-funcionário do Facebook nos contatou e perguntou se poderíamos vender as ações que detinha da empresa a outros investidores. Nunca tínhamos feito isso”, revela Aishwarya Iyer, porta-voz da SecondMarket. O executivo revela que técnicos da empresa, após estudarem profundamente este mercado, concluíram que as companhias de tecnologia podem levar até dez anos para abril capital. Logo, tais papéis deverão ser negociados, ainda por longo período, de forma privada – o que, para a SecondMarket, representa ótimas perspectivas de negócio.

Riscos – Antes de correr ao computador – o mercado de balcão é quase todo movimentado pela internet – com o sonho de comprar nem que seja uma ação do Facebook, vale lembrar que os riscos destas operações são altíssimos. A explicação é que neste mercado – como as companhias têm capital fechado e não precisam divulgar balanços periódicos sobre suas finanças – há muita ‘assimetria de informação’. Em outras palavras, dados confiáveis sobre elas não circulam de forma rápida e transparente. Um investidor precavido nunca toma a decisão de adquirir ou vender um ativo só porque a empresa emissora é famosa ou porque os jornais dizem que ela fatura muito. É preciso ter conhecimento profundo de seus principais dados financeiros para traçar projeções e fazer apostas. Só então, toma-se a decisão.

Mais uma vez, os americanos enxergaram neste ‘abismo’ de informação uma oportunidade de ganhar dinheiro. A gestora de recursos e consultoria Greencrest Capital, de Nova York, por exemplo, especializou-se em suprir seus clientes de informações sobre corporações que não têm ações nas bolsas de valores. “A principal característica do trabalho que faço está relacionada à pesquisa do histórico e balanço financeiro das empresas que têm ações no mercado privado. Desta maneira, abastecemos o mercado secundário com informações confiáveis; tentamos construir uma relação de confiança entre empresas e investidores”, explica Max Wolff, economista da Greencrest.

Grupo seleto de investidores – Essas preciosas informações, logicamente, custam caro. Este é um mercado, contudo, que está mesmo longe de ser acessível ao cidadão comum. A comissão de valores mobiliários americana (SEC, na sigla em inglês) estabelece que, para atuar neste segmento, o investidor tem de comprovar, no mínimo, um salário anual de 200.000 dólares durante três anos ou 1 milhão de dólares em propriedades, excluindo sua própria residência.  A SEC, a despeito desta exigência, não regula de perto as transações neste mercado, como faz nas bolsas.

Bolha distante – O fato de o mercado de balcão ser ainda bastante restrito é o principal argumento apontado por especialistas para refutar a tese de que haveria nela uma ‘bolha’ em formação. “Quem compra ações neste mercado são pessoas muito profissionais. Se algo der errado, ele saberá o porquê. Eu não assemelharia, em hipótese alguma, esta valorização das empresas no mercado secundário ao aumento do preço das hipotecas antes da recessão mundial”, esclarece Humberg.

A movimentação prevista para 2011 no ‘balcão’ nos EUA, de 7 bilhões de dólares, segundo a consultoria americana Nyppex Holdings LLC, está muito aquém da movimentação das bolsas americanas, que é contada aos trilhões de dólares. Além disso, o recente fenômeno do aquecimento deste mercado carece de um elemento fundamental da ‘bolha clássica’: o “efeito manada”. Como os investidores a operar neste ambiente são poucos e qualificados, acredita-se que o ‘balcão’ dificilmente atingirá o nível de irracionalidade que, vez ou outra, se abate sobre os mercados de massa.

Por outro lado, é inegável que as cifras vultosas vistas no mercado secundário têm ajudado a dar fôlego às estimativas de valor de algumas empresas dos EUA, principalmente, as envolvidas com mídias sociais. Outro fator a impulsionar as projeções é a entrada de grandes bancos e fundos de private equity no negócio. O Goldman Sachs, um dos maiores bancos de investimentos americano, por exemplo, negociou diretamente com o Facebook a entrada de 450 milhões de dólares em seu capital, provenientes de investidores espalhados pelo mundo – inclusive, brasileiros.

Razões para não se apostar numa bolha neste setor existem, o que não quer dizer que o clima de alerta desaparecerá. Leigos no assunto, toda vez que se depararem com cifras astronômicas, começarão a se questionar se não há alguma coisa errada. E os exemplos continuarão a ser variados. Recentemente, o site de relacionamento corporativo LinkedIn foi a primeira das grandes empresas da internet a abrir capital na bolsa. Tão logo foi a público, suas ações, cotadas inicialmente em 45 dólares, fecharam o primeiro dia de pregão em 94,25 dólares (valorização de mais de 100%). A arrecadação chegou a 9 bilhões de dólares, algo que nem a direção da companhia imaginava atingir. A desenvolvedora de jogos Zynga é a próxima da lista e a expectativa é por muitos e muitos cifrões também.