Textos que divertem

Olavo de Carvalho
Diário do Comércio, 3 de outubro de 2005

Dia do Saci

O deputado Aldo Rebelo, cujo cargo de presidente da Câmara custou quinhentos milhões de reais em favores distribuídos pelo governo para elegê-lo, não parece ser pessoalmente um corrupto nem um conspirador maquiavélico. Durante um tempo cheguei a imaginar que fosse homem honesto. Hoje compreendo que ele não pode ser honesto nem desonesto, porque ambas essas condutas requerem um pouco de imaginação. Ele é o inverso simétrico do Super-Homem de Nietzsche: está aquém do bem e do mal. Se pertence ao partido que aplaudiu o genocídio empreendido por Mao Tsé-tung, não é porque seja malvado, nem porque consiga seriamente enxergar algum bem em tanta crueldade: é porque, reunindo todas as forças intelectuais de que dispõe, não chega a atinar com a diferença entre o número de sessenta milhões de chineses assassinados pelo regime comunista que ele tanto admira e o das três centenas de vítimas da ditadura militar que ele tanto abomina.

Insensível às diferenças quantitativas, é natural que o deputado Rebelo o seja mais ainda às qualitativas. A distinção entre enaltecer a pátria e humilhá-la, por exemplo, lhe escapa completamente. Ele é o autor de uma lei que, sob alegações nacionalistas, proíbe a importação de palavras, lei que, se fosse aplicada, produziria velozmente a redução do vernáculo à condição de dialeto local sem comunicação com o mundo. Vá ser patriota assim lá na Bruzundanga.

Com idêntico espírito verde-amarelista propôs ele a instituição do Dia do Saci, para oferecer uma alternativa local ao Halloween, o Dia das Bruxas, que no seu entender foi introduzido no Brasil como parte de um plano perverso de dominação cultural. Quando conto isso aos americanos, eles nem riem. Engolem em seco e, mediante esforços prodigiosos de autocontrole muscular, imitam o melhor que podem uma expressão de respeitosa seriedade. Fazem isso para não me humilhar, mas só conseguem é me humilhar mais ainda. Eu preferiria que rissem logo da minha cara. Antes ser alvo de gozação que de piedade.

O Congresso deveria instituir logo o Dia da Mula-Sem-Cabeça. Só não faz isso para não parecer badalação do presidente da República. Mas, após o Dia do Boto, o Dia do Curupira, o Dia da Mãe d´Água e os dias de várias outras criaturas inconcebíveis, virá quase que infalivelmente o Dia do Aldo Rebelo, ou Dia da Curtura.

Um país precisa estar na última lona, na mais desesperadora miséria espiritual, para apelar a uma brincadeira de crianças como símbolo representativo da sua cultura, principalmente porque brincadeiras de crianças são, por definição, arremedos infantis de símbolos representativos. Nenhum menino brincaria de caubói, de confederado, de fuzileiro ou de paraquedista se não tivesse havido uma epopéia da ocupação do Oeste, uma Guerra Civil e duas Guerras Mundiais e se esses capítulos grandiosos e sangrentos da História não tivessem se cristalizado em símbolos tradicionais que a imaginação infantil só pode imitar de maneira muito diminuída e caricatural.

No caso do Dia das Bruxas, a distância entre o símbolo originário e a brincadeira é maior ainda, na medida em esta não alude nem remotamente a valores tradicionais, mas, ao contrário, resulta da diluição progressiva com que a cultura se livrou de um contravalor que ela desprezava. O Dia das Bruxas veio para a América de contrabando, trazido por feiticeiras espalhadas entre os imigrantes irlandeses, e não era era sequer representativo dessa nacionalidade minoritária, acentuadamente católica: era o vício sintomático de uma minoria dentro da minoria. Tão deslocado estava no novo meio social, que logo perdeu a virulência da intenção originária, tornando-se brincadeira de crianças. Era uma celebração satanista, virou folclore infantil. Só é um símbolo cultural americano no sentido em que uma marca de vacina é um monumento à varíola, ou no sentido em que a “Farra do Boi”, pela analogia externa com a malhação do Judas, é um ritual cristão. É nesse mesmíssimo sentido que o deputado Rebelo é um patriota. Acreditando enaltecer a cultura nacional, ele a avilta e a espezinha pela escala diminutiva em que a concebe, proporcional à visão mesquinhamente pueril que tem da cultura vizinha. Direi então que o deputado Rebelo é uma diluição, uma caricatura de patriota? Não. Diluição, caricatura, era Policarpo Quaresma, o homem cheio de boas intenções imaginárias, traduzidas no mundo real como propostas nacionalistas irrealizáveis, inúteis e sem sentido. Mas Policarpo tinha ainda algum fundamento na realidade, na medida em que seu conhecimento de história do Brasil e das línguas indígenas era genuíno. O deputado Rebelo não tem nem isso. Ele só é um patriota no sentido duplamente indireto em que a caricatura de uma caricatura, a imitação da imitação, o postiço do postiço, a diluição da diluição, pode ter ainda alguma ligação com o objeto originário. Mas por isso mesmo ele é representativo daquilo que, no Brasil de hoje, se chama de cultura nacional – o culto de bonecos de papelão improvisados ao sabor de um oportunismo publicitário sufocante. A imagem completa de um país espiritualmente morto.

Mitos urbanos

Por Reinaldo Azevedo

 

Um dos mitos urbanos sustentados por “pesquisas” a cuja metodologia nunca se tem acesso é o de que negros ganham menos do que brancos para executar as mesmas tarefas — diz-se isso também das mulheres. Então vamos ver. Já tive revista. Havia mais mulheres do que homens — creio que essa seja a realidade de todas as redações. Ora, claro que eu contratava “as” jornalistas porque, vocês sabem, queria pagar salários menores. Havia dois pisos e dois tetos salariais: para os portadores de pênis e para as destituídas de pênis. A regra, como sabem, vale em todas as empresas.No caso dos negros, é a mesma coisa. Há lá um determinado cargo que exige algumas habilidades. Chega o candidato negro. O empregador, é claro, já vai rebaixando o salário do candidato de saída. Se for só um desses morenos brasileiros, o salário já é acrescido em uns 10%. Louro de olho azul já onera excessivamente a folha de pagamento. Como o capitalismo é um modelo que busca, sem dúvida, eficiência, mas também pretende o custo mínimo com o máximo de lucro (vocês sabem como os capitalistas são horríveis e amorais…), mau negócio, então, é ser homem, competente e louro. Porque acaba custando muito caro. Estranho que o desemprego não seja maior nessa faixa da população.

Há pretos educados, com boa formação escolar, que, sei lá, não dão certo na vida? Há. Mas também há brancos. A diferença é que o branco nessa condição é só alguém que não cuidou direito da sua carreira. Já o preto só pode ter sido vítima da discriminação. Os racialistas querem lhe tirar o direito de ser incompetente — que é o mais básico dos direitos humanos.

Esse papo é de um ridículo atroz num país em que quase a metade da população é mestiça — e não “negra” — e em que a educação, para a totalidade dos brasileiros pobres, é uma lástima. Ela, sim, faz a diferença no mercado de trabalho. Se a maior parte dos negros é pobre, a maior parte dos negros está tendo acesso a uma educação precária, que vitima também os brancos pobres, e pobres e negros, nesse caso, já foram igualados pela… pobreza.

O que essa conversa chata e obscurantista de criar medidas reparadoras para grupos específicos consegue é golpear as políticas universalistas de educação. E depois, é óbvio, o reacionário sou eu.

Bonn urgente! - Boletim 2

26 Mai 2008 - 11:10

Por Ge Moustaki* - enviado especial

Foi um sucesso a reunião de cúpula entre o Grande Timoneiro dos Povos do Paraná e as principais autoridades européias. Além da anfitriã, Ângela Merkel, estavam presentes os primeiros-ministros da Grã-Bretanha, Gordon Brown, e da Espanha, Luiz Zapatero, os reis Harald, da Noruega, e Gustav, da Suécia, o príncipe Charles, e o todo poderoso russo Vladmir Putin. Quem chamou a atenção, pela acompanhante, foi o narigudo Nicolas Sarkozy e a gostosérrima Carla Bruni. O Grande Timoneiro, com seu proverbial bom-humor e finesse, beijou a mão da bonitona e perguntou (em francês perfeito – ele fala 65 idiomas e uma dezena de dialetos) se ela realmente era casada e se traía o marido… A beldade francesa riu gostosamente… O Grande Timoneiro convidou-a então para conhecer o Porto Público Popular e Transparente de Paranaguá, para dar uma voltinha nuns guindastes, ou quem sabe um saudável passeio eqüestre no “Proletário”, a magnífica montaria pública e popular da residência de campo do Churchill curitibano. A espetacular primeira-dama sorriu e deixou um enigmático “Por que não?” no ar…

Deixando as galanterias de lado, a reunião serviu para consolidar a posição de líder global do nosso grande Kaiser - como eles preferem por aqui. Foi de um impacto estrondoso a forma decidida como o nosso inoxidável líder expôs suas idéias e apontou soluções para os problemas do mundo moderno. A ponto de ser assediado pela assessoria de Barack Obama para elaborar um plano de governo consistente, caso o afro-americano vença a eleição em novembro.

Por essas e por outras, a principal revista alemã, a Der Spiegel, publicou uma edição especial com a foto do grande Timoneiro na capa e o título “Europa muss folgen sie den spuren von Paraná” (A Europa deve seguir os passos do Paraná). A reportagem traz uma maravilhosa compilação de todas as obras e feitos que nos últimos cinco anos transformaram o nosso Estado em potência global. Precisa dizer mais alguma coisa? Morra de inveja, imprensa canalha! Afunde na mediocridade, oposição insignificante! Vibrem paranaenses! É nóis na fita!

*Gerhonikadys Mosutakipopoulos, o Ge Moustaki, segue caninamente os passos do grande líder de todos os paranaenses. Está na Alemanha a convite da Internacional Inconformista Bipolar Aguda, secção germânica. É autor de extensa obra sobre Política, História, Sociologia e ranicultura. Entre seus livros está: “Marx, Lênin e o nu frontal nas revistas masculinas: uma visão epistemológica”, da coleção “Será o Benedito”, editora Irmãos Brothers.

Caçula lá ou morte!

5 Ago 2008 - 11:15

por Ge Moustaki*

O mundo assiste estarrecido uma das campanhas mais odiosas já desencadeadas contra um ser humano: algo mais ignominioso que a perseguição aos povos judeus pelos egípcios na antiguidade; mais vergonhoso que a Inquisição que dizimou grandes pensadores e até gente simples, mais perverso que a campanha para desmoralizar grandes homens como Enver Hoxha, Nicolau Ceausecu,  Hugo Chaves, o Coringa  e a potrancona Donatela Fontini. Trata-se de uma  campanha odiosa financiada pelas concessionárias de pedágio, pelas grandes fabricantes de transgênicos, pelo grande capital transnacional, pela imprensa canalha e por políticos corruptos e mesquinhos; é a campanha para tentar desmoralizar o caçulinha  Mau-little, orgulho da raça, inteligência luminosa, filósofo emérito, contabilista incomparável, um Freud dos nossos tempos. Um Stephen Hawking das nossas plagas. Tudo porque a turma mesquinha e invejosa não quer que o caçulinha do Grande Timoneiro dos Povos do Paraná ocupe uma vaguinha no Tribunal de Contas ! É de uma desfaçatez inacreditável! Essa turma abjeta quer impedir, através de chicanas jurídicas, que o jovem Iluminado exerça a sacrossanta missão de vigiar cada centavo gasto no Paraná! O jovem Mau-little nasceu para o cargo. É psicólogo sim, e daí? Quem o conhece sabe que tem múltiplos talentos. Poderia bem ser um engenheiro astrofísico ou um topógrafo interestelar, um chef de cuisine ou até Papa! Mas não. Humildemente quer apenas ficar lá, no TC,  como um monge, fazendo continhas, lendo livros contábeis embolorados e insalubres, em salas mal iluminadas como masmorras, cercado de  funcionários de aspecto  brutal e sinistro… tudo para garantir que nenhuma pataca do povo mais humilde da nossa terra seja gasto inutilmente. E tanto desprendimento a troco de quase nada: um salarinho que é uma coisiquinha, uma titiquinha, um cisco. A pequenez das pessoas nos assusta. É por essas e por  outras que nós, da Irmandade da Camisa Azul Desbotada (ONG paramilitar ecumênica religiosa-sem fins lucrativos e pacifista – criada para apoiar todas as ações do Grande Timoneiro) estamos organizando uma passeata monstro marcada para a próxima quinta-feira. Vamos reunir pelo menos 1 milhão de pessoas ( O Doático e o Moreira já garantiram pelo menos 800 mil seguidores) e vamos levar o Mau-little  até a sede do Tribunal. Ele será conduzido pela turba em uma liteira (aquelas cadeirinhas que levavam os nobres) até o tribunal e será empossado com apoio da massa! Se alguém se meter a besta e tentar impedir, nós vamos até o Tribunal de Justiça e vamos “convencer” (numa boa, sem violência, porque nós somos de paz) os juízes que é vontade do povo que o caçula  Mau-little assuma o que lhe é de direito! Se algum juiz se meter a besta nós convocamos imediatamente um tribunal popular – presidido pelo sempre operoso Doático – e  decidimos que a voz do povo é a voz do Timoneiro, ou vice-versa! Os juízes recalcitrantes podem ser condenados a  lustrar os cascos das montarias do Grande Timoneiro,  com função vitalícia, assim como a do pequeno Mau-little, o caçulinha talentoso!

*Gerhonikhadis Mostakipopoulos, o Ge Moustaki,  é fundador da Irmandade da Camisa Azul Desbotada – ONG paramilitar de orientação dalai-lamista, criada para defender a administração do Grande Timoneiro dos Povos do Paraná. É brilhantemente assessorado pelo Doático e pelo Moreira. E se nós somos rebeldes, é porque o mundo quis assim!