Textos que iluminam
Capitalismo e Cristianismo
Olavo de Carvalho
A pedidos, e com notável atraso, reproduzo aqui este artigo que, com título editorial modificado, saiu na revista República de dezembro de 1998. – O. de C.
Uma tolice notável que circula de boca em boca contra os males do capitalismo é a identificação do capitalista moderno com o usurário medieval, que enriquecia com o empobrecimento alheio.
Lugar-comum da retórica socialista, essa ideiazinha foi no entanto criação autêntica daquela entidade que, para o guru supremo Antonio Gramsci, era a inimiga número um da revolução proletária: a Igreja Católica.
Desde o século XVIII, e com freqüência obsessivamente crescente ao longo do século XIX, isto é, em plena Revolução Industrial, os papas não cessam de verberar o liberalismo econômico como um regime fundado no egoísmo de poucos que ganham com a miséria de muitos.
Mas que os ricos se tornem mais ricos à custa de empobrecer os pobres é coisa que só é possível no quadro de uma economia estática, onde uma quantidade mais ou menos fixa de bens e serviços tem de ser dividida como um bolo de aniversário que, uma vez saído do forno, não cresce mais. Numa tribo de índios pescadores do Alto Xingu, a “concentração do capital” eqüivaleria a um índio tomar para si a maior parte dos peixes, seja na intenção de consumi-los, seja na de emprestá-los a juros, um peixe em troca de dois ou três. Nessas condições, quanto menos peixes sobrassem para os outros cidadãos da taba, mais estes pobres infelizes ficariam devendo ao maldito capitalista índio — o homem de tanga que deixa os outros na tanga.
Foi com base numa analogia desse tipo que no século XIII Sto. Tomás, com razão, condenou os juros como uma tentativa de ganhar algo em troca de coisa nenhuma. Numa economia estática como a ordem feudal, ou mais ainda na sociedade escravista do tempo de Aristóteles, o dinheiro, de fato, não funciona como força produtiva, mas apenas como um atestado de direito a uma certa quantidade genérica de bens que, se vão para o bolso de um, saem do bolso de outro. Aí a concentração de dinheiro nas mãos do usurário só serve mesmo para lhe dar meios cada vez mais eficazes de sacanear o próximo.
Mas pelo menos do século XVIII em diante, e sobretudo no XIX, o mundo europeu já vivia numa economia em desenvolvimento acelerado, onde a função do dinheiro tinha mudado radicalmente sem que algum papa desse o menor sinal de percebê-lo. No novo quadro, ninguém podia acumular dinheiro embaixo da cama para acariciá-lo de madrugada entre delíquios de perversão fetichista, mas tinha de apostá-lo rapidamente no crescimento geral da economia antes que a inflação o transformasse em pó. Se cometesse a asneira de investi-lo no empobrecimento de quem quer que fosse, estaria investindo na sua própria falência.
Sto. Tomás, sempre maravilhosamente sensato, havia distinguido entre o investimento e o empréstimo, dizendo que o lucro só era lícito no primeiro caso, porque implicava participação no negócio, com risco de perda, enquanto o emprestador, que se limitava sentar-se e esperar com segurança, só deveria ter o direito à restituição da quantia emprestada, nem um tostão a mais. Na economia do século XIII, isso era o óbvio — aquele tipo de coisa que todo mundo enxerga depois que um sábio mostrou que ela existe. Mas, no quadro da economia capitalista, mesmo o puro empréstimo sem risco aparente já não funcionava como antes — só que nem mesmo os banqueiros, que viviam essa mudança no seu dia a dia e aliás viviam dela, foram capazes de explicar ao mundo em que é que ela consistia. Eles notavam, na prática, que os empréstimos a juros eram úteis e imprescindíveis ao desenvolvimento da economia, que portanto deviam ser alguma coisa de bom. Mas, não sabendo formular teoricamente a diferença entre essa prática e a do usurário medieval, só podiam enxergar-se a si próprios como usurários, condenados portanto pela moral católica. A incapacidade de conciliar o bem moral e a utilidade prática tornou-se aí o vício profissional do capitalista, contaminando de dualismo toda a ideologia liberal (até hoje todo argumento em favor do capitalismo soa como a admoestação do adulto realista e frio contra o idealismo quixotesco da juventude). Karl Marx procurou explicar o dualismo liberal pelo fato de que o capitalista ficava no escritório, entre números e abstrações, longe das máquinas e da matéria — como se fazer força física ajudasse a solucionar uma contradição lógica, e aliás como se o próprio Karl Marx houvesse um dia carregado algum instrumento de trabalho mais pesado que uma caneta ou um charuto. Mais recentemente, o nosso Roberto Mangabeira Unger, o esquerdista mais inteligente do planeta, e que só não é plenamente inteligente porque continua esquerdista, fez uma crítica arrasadora da ideologia liberal com base na análise do dualismo ético (e cognitivo, como se vê em Kant) que é a raiz da esquizofrenia contemporânea.
Mas esse dualismo não era nada de inerente ao capitalismo enquanto tal, e sim o resultado do conflito entre as exigências da nova economia e uma regra moral cristã criada para uma economia que já não existia mais. O único sujeito que entendeu e teorizou o que estava acontecendo foi um cidadão sem qualquer autoridade religiosa ou prestígio na Igreja: o economista austríaco Eugen Böhm-Bawerk. Este gênio mal reconhecido notou que, no quadro do capitalismo em crescimento, a remuneração dos empréstimos não era apenas uma conveniência prática amoral, mas uma exigência moral legítima. Ao emprestar, o banqueiro simplesmente trocava dinheiro efetivo, equivalente a uma quota calculável de bens na data do empréstimo, por um dinheiro futuro que, numa economia em mudança, podia valer mais ou valer menos na data da restituição. Do ponto de vista funcional, já não existia mais, portanto, diferença positiva entre o empréstimo e o investimento de risco. Daí que a remuneração fosse tão justa no primeiro caso como o era no segundo. Tanto mais justa na medida mesma em que o liberalismo político, banindo a velha penalidade da prisão por dívidas, deixava o banqueiro sem a máxima ferramenta de extorsão dos antigos usurários.
Um discípulo de Böhm-Bawerk, Ludwig von Mises, explicou mais detalhadamente essa diferença pela intervenção do fator tempo na relação econômica: o emprestador troca dinheiro atual por dinheiro potencial, e pode fazê-lo justamente porque, tendo concentrado capital, está capacitado a adiar o gasto desse dinheiro, que o prestamista por seu lado necessita gastar imediatamente para tocar em frente o seu negócio ou sua vida pessoal. Von Mises foi talvez o economista mais filosófico que já existiu, mas, ainda um pouco embromado por uns resíduos kantianos, nem por um instante pareceu se dar conta de que estava raciocinando em termos rigorosamente aristotélico-escolásticos: o direito à remuneração provém de que o banqueiro não troca simplesmente uma riqueza por outra, mas troca riqueza em ato por riqueza em potência, o que seria rematada loucura se o sistema bancário, no seu conjunto, não estivesse apostando no crescimento geral da economia e sim apenas no enriquecimento da classe dos banqueiros. A concentração do capital para financiar operações bancárias não é portanto um malefício que só pode produzir algo de bom se for submetido a “finalidades sociais” externas (e em nome delas policiado), mas é, em si e por si, finalidade socialmente útil e moralmente legítima. Sto. Tomás, se lesse esse argumento, não teria o que objetar e certamente veria nele um bom motivo para a reintegração plena e sem reservas do capitalismo moderno na moral católica. Mas Sto. Tomás já estava no céu e, no Vaticano terrestre, ninguém deu sinal de ter lido Böhm-Bawerk ou Von Mises até hoje. Daí a contradição grosseira das doutrinas sociais da Igreja, que, celebrando da boca para fora a livre iniciativa em matéria econômica, continuam a condenar o capitalismo liberal como um regime baseado no individualismo egoísta, e terminam por favorecer o socialismo, que agradece essa colaboração instituindo, tão logo chega ao poder, a perseguição e a matança sistemática de cristãos, isto é, aquilo que o Dr. Leonardo Boff, referido-se particularmente a Cuba, denominou “o Reino de Deus na Terra”. Daí, também, que o capitalista financeiro (e mesmo, por contaminação, o industrial), se ainda tinha algo de cristão, continuasse a padecer de uma falsa consciência culpada da qual só podia encontrar alívio mediante a adesão à artificiosa ideologia protestante da “ascese mundana” (juntar dinheiro para ir para o céu), que ninguém pode levar a sério literalmente, ou mediante o expediente ainda mais postiço de fazer majestosas doações em dinheiro aos demagogos socialistas, que, embora sejam ateus ou no máximo deístas, sabem se utilizar eficazmente da moral católica como instrumento de chantagem psicológica, e ainda são ajudados nisto — porca miséria! — pela letra e pelo espírito de várias encíclicas papais.
Uma das causas que produziram o trágico erro católico na avaliação do capitalismo do século XIX foi o trauma da Revolução Francesa, que, roubando e vendendo a preço vil os bens da Igreja, enriqueceu do dia para a noite milhares de arrivistas infames e vorazes, que instauraram o império da amoralidade cínica, o capitalismo selvagem tão bem descrito na obra de Honoré de Balzac. Que isso tenha se passado logo na França, “filha dileta da Igreja”, marcou profundamente a visão católica do capitalismo moderno como sinônimo de egoísmo anticristão. Mas seria o saque revolucionário o procedimento capitalista por excelência? Se o fosse, a França teria evoluído para o liberal-capitalismo e não para o regime de intervencionismo estatal paralisante que a deixou para sempre atrás da Inglaterra e dos Estados Unidos na corrida para a modernidade. Um governo autoritário que mete a pata sobre as propriedades de seus adversários para distribuí-las a seus apaniguados, é tudo, menos liberal-capitalista: é, já, o progressismo intervencionista, no qual, por suprema ironia, a Igreja busca ainda hoje enxergar um remédio contra os supostos males do liberal-capitalismo, que por seu lado, onde veio a existir — Inglaterra e Estados Unidos —, nunca fez mal algum a ela e somente a ajudou, inclusive na hora negra da perseguição e do martírio que ela sofreu nas mãos dos comunistas e de outros progressistas estatizantes, como os revolucionários do México que inauguraram nas Américas a temporada de caça aos padres. O caso francês, se algo prova, é que o “capitalismo selvagem” floresce à sombra do intervencionismo estatal, e não do regime liberal (coisa aliás arquiprovada, de novo, pelo cartorialismo brasileiro). Insistindo em dizer o contrário, movida pela aplicação extemporânea de um princípio tomista e vendo no estatismo francês o liberal-capitalismo que era o seu inverso, a Igreja fez como essas mocinhas de filmes de suspense, que, fugindo do bandido, pedem carona a um caminhão… dirigido pelo próprio. A incapacidade de discernir amigos e inimigos, o desespero que leva o pecador a buscar o auxílio espiritual de Satanás, são marcas inconfundíveis de burrice moral, intolerável na instituição que o próprio Cristo designou Mãe e Mestra da humanidade. Errare humanum est, perseverare diabolicum: a obstinação da Igreja em suas reservas contra o liberal-capitalismo e em sua conseqüente cumplicidade com o socialismo é talvez o caso mais prolongado de cegueira coletiva já notado ao longo de toda a História humana. E quando em pleno século XIX o papa já assediado de contestações dentro da Igreja mesma proclama sua própria infalibilidade em matéria de moral e doutrina, isto não deixa de ser talvez uma compensação psicológica inconsciente para a sua renitente falibilidade em matéria econômica e política. Daí até o “pacto de Metz”, em que a Igreja se ajoelhou aos pés do comunismo sem nada lhe exigir em troca, foi apenas um passo. Ao confessar que, com o último Concílio, “a fumaça de Satanás entrara pelas janelas do Vaticano”, o papa Paulo VI esqueceu de observar que isso só podia ter acontecido porque alguém, de dentro, deixara as janelas abertas.
Que uma falsa dúvida moral paralise e escandalize as consciências, introduzindo nelas a contradição aparentemente insolúvel entre a utilidade prática e o bem moral, e, no meio da desorientação resultante, acabe por levar enfim a própria Igreja a tornar-se cúmplice do mais assassino e anticristão dos regimes já inventados —eis aí uma prestidigitação tão inconfundivelmente diabólica, que é de espantar que ninguém, na Igreja, tenha percebido a urgência de resolver essa contradição no interior mesmo da sua equação lógica, como o fizeram Böhm-Bawerk e von Mises (cientistas alheios a toda preocupação religiosa). Mais espantoso ainda é que em vez disso todos os intelectuais católicos, papas inclusive, tenham se contentado com arranjos exteriores meramente verbais, que acabaram por deixar no ar uma sugestão satânica de que o socialismo, mesmo construído à custa do massacre de dezenas de milhões de cristãos, é no fundo mais cristão que o capitalismo.
Não há alma cristã que possa resistir a um paradoxo desse tamanho sem ter sua fé abalada. Ele foi e é a maior causa de apostasias, o maior escândalo e pedra de tropeço já colocado no caminho da salvação ao longo de toda a história da Igreja.
Arrancar da nossa alma essa sugestão hipnótica, restaurar a consciência de que o capitalismo, com todos os seus inconvenientes e fora de toda intervenção estatal pretensamente corretiva, é em si e por essência mais cristão que o mais lindinho dos socialismos, eis o dever número um dos intelectuais liberais que não queiram colaborar com o farsesco monopólio esquerdista da moralidade, trocando sua alma pelo prato de lentilhas da eficiência amoral.
A defesa moral do capitalismo
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Uma das razões de nossa moral estar hoje tão deturpada é porque, vários anos atrás, nossos pais, avós e bisavós fizeram várias concessões aos inimigos da liberdade justamente em termos morais. Para ser mais específico, eles permitiram que os inimigos da liberdade pudessem se arvorar os únicos detentores da superioridade moral.
Aqueles que defendiam o socialismo, o comunismo e o fascismo ganharam credibilidade perante o nascente movimento progressista, e o movimento progressista ganhou credibilidade perante todas as gerações de lá pra cá.
Essas ideias, cujo centro irradiador foi a Alemanha do século XIX, afirmavam defender a compaixão e o esclarecimento. O objetivo, obviamente, era transformar a estrutura do mundo, o que levou àquele pensamento mais moderno e progressista de que poderes totais deveriam ser dados ao governo para que este — desde que, obviamente, sob o comando destes progressistas iluminados — controlasse, direcionasse e alterasse as pessoas, tudo para torná-las seres humanos melhores.
Obviamente, o que eles fizeram foi substituir o mais benevolente e radical sistema que o mundo já viu pelo mais diabólico e destrutivo dos ideais — a ser implementado pela mais antiga das ferramentas: a força bruta.
Se quisermos recuperar a superioridade política na batalha pela liberdade, temos também de resgatar, de maneira clara e inequívoca, a superioridade moral. Eis a seguir, portanto, parte do que vejo como a defesa moral do capitalismo e daqueles princípios de livre mercado que permitem que as forças produtivas e criativas do capitalismo floresçam e prosperem em sua totalidade.
1) O capitalismo cria valor
Toda a função e finalidade do capitalismo é facilitar a criação e produção de valor — bens e serviços que contribuem para a vida de uma pessoa e para seu bem-estar. O capitalismo estimula que os esforços criativos e produtivos sejam direcionados para a satisfação dos desejos e das necessidades dos outros.
Costumamos aceitar como natural, como um presente da natureza, o formidável processo de criação de valor — algo que nos foi legado por gerações anteriores — que ocorre por meio da livre troca de bens e serviços. Nós nos acostumamos de tal modo às nossas atuais condições de vida, que a maioria das pessoas jamais parou para considerar como tudo seria caso não houvesse capitalismo.
Se o fizessem, constatariam o óbvio: ainda estaríamos vivendo e manuseando uma única ferramenta de pedra, a mesma que os ancestrais da humanidade utilizaram por milhões de anos. E o nosso único modo de adquirir riqueza seria por meio de guerras, as quais seriam mais brutais do que a maioria de nós poderia imaginar.
2) O capitalismo estimula o planejamento de longo prazo, desestimula a impulsividade e não permite que os indivíduos se entreguem ao deleite excessivo de suas tentações e desejos. Isso facilita o desenvolvimento da civilização, da paz e da prosperidade
Se você quer criar algo de valor, você tem de pensar, tem de utilizar suas faculdades mentais. Você tem de estar disposto a dedicar muito tempo para aprender novas habilidades e saber como praticá-las; tem de saber conectar longas relações de causa e efeito a fim de trazer ao mundo algo que não existia antes. E esse algo de tem de ser proveitoso ou desejável para outras pessoas.
Como você tem de considerar as necessidades e desejos de terceiros, isso significa que você tem de criar empatia. Você tem de se tornar capaz de perceber e entender o que vai dentro das outras pessoas, o que significa que você tem de desenvolver habilidades que lhe permitam entrever o que outras pessoas pensam, sentem e desejam.
Você tem ser capaz de estabelecer contato com outras pessoas de maneira pacífica, o que significa que você deve saber ter bons modos e desenvolver outras habilidades sociais. O capitalismo estimula um comportamento mais extrovertido, uma maior cautela quanto aos seus modos e mais atenção a como seu comportamento afeta os outros.
O capitalismo também estimula a transmissão de habilidades intelectuais, emocionais e sociais que foram duramente conquistadas ao longo de gerações. O que você aprendeu, você quer repassar aos seus filhos e netos, alunos, amigos e colegas, de modo que eles continuem a desenvolver no futuro tudo o que você aprendeu.
É sobre isso esses fundamentos que se constrói a civilização, e esta é exatamente a definição de cultura. A humanidade possui uma característica singular em todo o mundo: ela possui cultura. Lobos, uma manada de búfalos e um conjunto de golfinhos também são organizações sociais; mas somente nós humanos transferimos conhecimento e expressões tangíveis desse conhecimento ao longo de gerações.
Fazemos isso porque temos a capacidade mental para fazê-lo. Porém, é o capitalismo que nos estimula a utilizar essa capacidade mental, e a utilizá-la de tal maneira que sabemos como aperfeiçoar tudo o que já foi criado anteriormente.
3) O capitalismo facilita o incremento da satisfação pessoal de longo prazo, bem como a capacidade de se ter felicidade na vida. Isso, por sua vez, estimula as pessoas a se empenharem na excelência pessoal — que é a virtude da felicidade.
Temos dentro de nós os impulsos e os desejos que podem nos levar a prazeres de curto prazo e a ações que podem causar grandes danos para nós mesmos e para outros. Podemos ser violentos, podemos ser insultuosos, podemos ser absortos, e podemos ser totalmente desatentos para com os efeitos que temos sobre os outros.
Ceder a estes impulsos e desejos regularmente significa criar uma vida destrutiva, perigosa, dolorosa e curta. Estimular tal estilo de vida como cultura é criar um autêntico inferno na terra.
O capitalismo faz com que seja supremamente recompensador e lucrativo fazermos algo completamente diferente. Afinal, também temos dentro de nós a capacidade de pensar, de planejar, de antever as potenciais consequências de nossas ações, de aprender com nossos erros e com as respostas de terceiros.
Quanto mais utilizamos essa capacidade, mais desenvolvemos uma apreciação pela grande felicidade e satisfação pessoal que pode advir do fato de sermos muito atentos ao que fazemos; e aprendemos, com uma profundidade continuamente maior, como aquilo que nós fazemos afeta a nós mesmos e aos outros.
O capitalismo cria as circunstâncias externas que faz com que utilizar essa capacidade seja um benefício. São essas qualidades empáticas, recíprocas, de longo prazo e voltadas para o nosso exterior que tornam possível uma grande diversidade de virtudes — gratidão, coragem, empatia, produtividade, criatividade, perdão, bondade, integridade, compaixão e perseverança, para citar apenas algumas.
4) O capitalismo nos estimula a cooperar
A noção da “competição selvagem”, em que impera a “lei do mais forte”, é uma antiga, duradoura e permanente imagem criada pelos inimigos do capitalismo. No entanto, é justamente o tipo de força bruta empregada pelo estado e pelos defensores do estatismo que estimula tal comportamento violento.
A competição dentro do capitalismo pode ser intensa e difícil, e insucessos (como falências) são parte integrante deste sistema. Porém, para ser bem sucedido em qualquer empreendimento, você tem de aprender a cooperar com outras pessoas, saber trabalhar em conjunto com elas e aprender com seus próprios erros e fracassos. Quanto melhor você se tornar nisso, maior será o potencial que você criará para o futuro.
São os seus concorrentes que lhe obrigarão a aprimorar suas habilidade, a preservar suas melhores práticas e a fornecer os melhores produtos e serviços para os seus consumidores. Neste sentido, seus concorrentes são seus aliados — eles não estão no ramo para destruir você pessoalmente; eles estão concorrendo com você, envolvidos em uma relação ativa que irá manter cada um de vocês dentro de suas margens de crescimento.
Nossos antepassados cometeram o erro de aceitar as reivindicações morais do socialismo. Eles aceitaram as virtuosas reivindicações de compaixão feitas pelos progressistas, e foram seduzidos pela visão que lhes foi apresentada de um mundo melhor, com pessoas melhores. Mas podemos perdoá-los por isso, uma vez que eles não tiveram — ao contrário de nós — o benefício de poder olhar para os últimos cem anos e testemunhar os resultados de tais visões idealistas.
Recordo-me vivamente de minha (conservadora) avó dizendo que “o socialismo pode ser uma boa ideia na teoria, mas ele simplesmente não funciona.” O que ela — e milhões de outras pessoas — não entenderam é que a teoria é também igualmente péssima e nojenta.
O que eles não entenderam é que os progressistas, os socialistas, os comunistas, os fascistas… os estatistas de todas as matizes — aqueles de defendem o uso da força do governo para moldar e construir os seres humanos à imagem e semelhança daqueles que detêm o poder — não tinham absolutamente nada que pudesse ser comparado ao poder benevolente das trocas voluntárias.
O contraste entre o capitalismo e todas as formas de estatismo é tão nítido quanto a diferença entre o que acontece quando uma madeireira é dona de sua própria terra vis-à-vis quando ela faz uma locação de curto prazo para explorar uma terra cujo dono é o estado.
Quando uma empresa é dona de sua própria terra, ela possui vários incentivos para cuidar muito bem daquela terra. Sua preocupação é com a produtividade de longo prazo. Assim, ela vai ceifar apenas um número limitado de árvores, pois não apenas terá de replantar todas as que ceifou, como também terá de deixar um número suficiente para a colheita do próximo ano.
Já quando a madeireira possui um arrendamento de curto prazo, seu incentivo é ceifar o máximo de árvores o mais rápido possível antes que o período de locação expire.
O capitalismo leva à civilização, ao planejamento de longo prazo, à empatia e à contínua e crescente criação de valores.
O estatismo gera em termos pessoais e culturais algo comparável a uma devastação florestal.
O capitalismo estimula o homem ambicioso a pensar: “O que eu posso criar ou produzir que viria a ser de grande valor e benefício para as outras pessoas, de modo que elas iriam voluntariamente e com prazer abrir mão de seu dinheiro arduamente ganho em troca desta minha criação? Como eu poderia me comunicar com elas e persuadi-las de que minha criação possui esse valor? Como elas poderiam fazer o melhor uso possível desta minha criação?”
Já o estatismo estimula o homem ambicioso a pensar: “Como eu posso adquirir mais poder para satisfazer minhas vontades, para utilizar a força para impor meus ideais — bem intencionados ou perversos — sobre as outras pessoas?”
Em uma disputa honesta para se determinar qual arranjo possui uma superioridade moral incontestável — o capitalismo ou qualquer outra forma de estatismo —, simplesmente não haveria disputa. Foi o capitalismo o que nos tornou humanos.
É o capitalismo que nos estimula a apresentarmos nossas melhores qualidades, a utilizar o que há de melhor em nossa natureza humana, a considerar e respeitar toda a experiência de terceiros e a trabalhar conjuntamente, e de maneira pacífica, para fazer com que as boas coisas aconteçam.
A defesa moral do capitalismo não é ambígua. Muito menos se trata de uma questão de opinião. Ela é tão clara e nítida quanto a diferença entre guerra e paz, liberdade e escravidão, sacrifício humano e empatia e amor.
Aprendamos com os erros de nossos antepassados e corajosamente passemos a afirmar a benevolência desta que é a maior força social que transforma para o bem: as relações de troca possibilitadas pelo capitalismo.
A segunda crise do socialismo
Dado que todos nós concordamos que o que estamos vivenciando não é apenas mais um ciclo econômico corriqueiro, a pergunta é: com o que exatamente estamos lidando aqui? Como devemos definir esta crise e em qual contexto ela pode ser mais bem compreendida?
Esta crise é sistêmica, e não cíclica. É uma crise de instituições. É uma crise de políticas. É uma crise da nossa arquitetura financeira.
Quando a crise começou em 2007 e se intensificou ao longo de 2008, ela foi frequentemente rotulada como sendo uma “crise do capitalismo”. Hoje você não mais ouve esse slogan com tanta frequência. É verdade que ainda há aqueles lapsos ocasionais, tristemente pronunciados até mesmo por economistas, mas quanto mais a crise se prolonga e quanto mais os holofotes permanecem direcionados sobre os sistemas bancários e financeiros, mais se torna explícito para o público o tanto que a atual arquitetura financeira é evidentemente conduzida não pela “mão invisível” do mercado, mas sim pela mão controladora do estado.
Sempre que uma nova rodada de “recapitalização” de bancos é anunciada, presumivelmente à custa dos pagadores de impostos — explicitando assim mais uma vez o fato de que os bancos estão acima do status de empresas capitalistas normais e falíveis —, e quando se anuncia pela enésima vez que a salvação de nossa extremamente endividada dar-se-á por meio de ainda mais endividamento do governo ou por meio de mais injeções de dinheiro criado do nada pelo banco central (um monopólio estatal) — o qual será entregue às pessoas como um aparente incentivo para elas se endividarem ainda mais —, o público começa a imaginar se as autoridades econômicas não estão completamente perdidas, e se não deveríamos temer mais os “pacotes de estímulo” do que o mercado desregulamentado.
Por que estamos nessa bagunça?
“Bancos descapitalizados” é um eufemismo para bancos que emprestaram demasiadamente, mais do que deveriam. Como podem os bancos ter emprestado tanto assim — algo que eles obviamente vêm fazendo há anos, até mesmo há décadas, e o fizeram ao redor de todo o mundo nesta que foi a mais duradoura e persistente farra creditícia da história — estando todos eles sob o controle de seus respectivos bancos centrais estatais? Afinal, sabe-se que, em um sistema de dinheiro de papel, os bancos centrais possuem o monopólio da impressão (ilimitada) de reservas bancárias, e são eles que administrativamente decretam as taxas básicas de juros da economia, o que significa que eles podem controlar as condições em que são realizados empréstimos. Logo, por que o atual colapso não é mais adequadamente rotulado de falha estatal, em vez de falha de mercado?
Lembrem-se de que a mudança de um sistema monetário apolítico, inflexível e baseado em uma commodity pra um sistema monetário em que há impressão ilimitada de dinheiro de papel, tudo sob total controle do estado, foi uma decisão puramente política, e não o resultado de forças de mercado. E tudo isso só desabrochou completamente com a abolição dos últimos resquícios do padrão-ouro, por obra e graça de Richard Nixon, em 1971. O atual sistema financeiro é resultado de planejamento político e de teorias macroeconômicas populares, ambas as quais foram criadas para proveito próprio dos governos e que agora se revelam completamente falhas, justamente por não serem resultado da espontânea cooperação humana que ocorre nos mercados.
A adoção de um sistema monetário cuja moeda é fiduciária e totalmente elástica libertou tanto os governos quanto seus protegidos — o setor bancário — dos grilhões impostos por uma moeda-commodity naturalmente inelástica, como era o ouro. Sem a camisa de força de um padrão-ouro, os governos obtiveram controle irrestrito sobre as impressoras de dinheiro, o que lhes permitiu “gerenciar” a economia, socorrer bancos, impedir ou encurtar recessões, e determinar as condições dos empréstimos — condições mais generosas, é claro, inclusive para si próprio.
Após 40 anos de moeda totalmente controlada pelo governo, eis aí o resultado.
Esta crise é o inevitável resultado da perigosa crença de que baixas taxas de juros, investimentos e prosperidade duradoura podem ser estimulados por meio do atalho fornecido pela impressão de dinheiro e por seus dois filhos gêmeos: empréstimos a juros artificialmente baixos e criação infinita de crédito bancário. A intenção era justamente abolir a maneira mais difícil (a maneira capitalista) de se enriquecer: o tradicional método de poupar e acumular capital genuíno.
Esta não é uma crise do capitalismo. Meu bom amigo Brian Micklethwait criou uma frase muito melhor para defini-la: estamos vivenciando a segunda crise do socialismo. Estamos testemunhando a morte do padrão-dinheiro-de-papel, 40 anos após o sistema financeiro global ter perdido seu último elo com o ouro e todo o sistema monetário ao redor do mundo ter se tornado simplesmente um monopólio territorial e irrestrito dos governos. O que estamos descobrindo agora é isto: o estado e os bancos precisam de uma camisa de força, caso contrário eles irão, mais cedo ou mais tarde, arrastar todos nós para um buraco negro.
Por que este sistema é socialista?
Há duas maneiras pelas quais um sistema monetário pode ser organizado: ou o mercado escolhe qual será seu dinheiro, ou o estado o faz.
O dinheiro escolhido pelo livre mercado, pelo capitalismo, sempre foi uma moeda-commodity que estivesse fora do controle político. Sempre que o público teve liberdade de escolha, ele optou por utilizar como dinheiro commodities cuja oferta fosse razoavelmente inelástica. Quase todas as sociedades, em todas as culturas e civilizações, utilizaram metais preciosos como dinheiro.
Um dinheiro baseado em commodity é um dinheiro apolítico. Ninguém pode criá-lo à vontade para se financiar a si próprio ou para manipular a economia. De maneira crucial, a cooperação humana por meio do comércio não acaba nas fronteiras políticas, de modo que a moeda-commodity sempre transcendeu tais fronteiras. Se o ouro era a moeda de um lado da fronteira, ele normalmente também era dinheiro do outro lado da fronteira, independentemente de qual imagem ou figura estava estampada nele.
Em contraste, sistemas baseados completamente em um dinheiro de papel que não possui elos a nenhuma commodity são e sempre serão criação de políticos. Em tais sistemas, o dinheiro pode ser “imprimido” essencialmente a custo zero — e, logo, praticamente sem limite. Mas não por qualquer pessoa. Impressão de dinheiro é privilégio exclusivo do estado e de seu banco central. O dinheiro, neste sistema, é totalmente elástico. No entanto, trata-se de um dinheiro político e estreitamente ligado às autoridades políticas. Em um mundo de dinheiro de papel, se você cruza uma fronteira política você tem de trocar seu dinheiro por um dinheiro diferente. Toda a eficiência dos atuais mercados de câmbio, que funcionam 24 horas por dia e movimentam vários trilhões de dólares, e que tão facilmente impressionam o observador leigo — para quem ele exemplifica o próprio capitalismo global —, nada mais é do que a tentativa do mercado de lidar da melhor maneira possível com a ineficiência do nacionalismo monetário e da segregação monetária, que são resultado do fato de todos os governos nacionais quererem ter seu próprio dinheiro de papel sob seu próprio controle político e territorial.
Chamar este sistema de capitalista significa despojar a palavra capitalismo de qualquer significado.
Neste admirado novo sistema de papel-moeda fiduciário e totalmente elástico, deixamos nossas questões financeiras não nas mãos do mercado livre e desimpedido, mas sim nas mãos do estado, de políticos e de bancos centrais. Seria muito mais adequado rotular este sistema de socialista, e não de capitalista. E este sistema fracassou. Novamente.
Quem são os beneficiários?
Por décadas, este sistema beneficiou o estado, os bancos, a ampla indústria financeira — todos os quais cresceram muito mais do que qualquer outra área da sociedade —, e todos aqueles que possuem ativos que são utilizados como colateral para alavancar os balancetes dos bancos: imóveis, ações, opções. Os custos deste sistema foram difundidos para todo o público por meio de inflação e de ocasionais pacotes de socorro financiados pelo contribuinte. Isto é socialismo para os ricos.
Exatamente como a primeira crise do socialismo — o colapso das economias planejadas sob orientação soviética em 1989 —, esta atual crise, a crise das finanças controladas pelos governos, também irá testemunhar a derrubada do atual establishment, embora as lideranças partidárias continuem nos dizendo que está tudo sob controle: “Não há nada a temer, camaradas! Bastam mais alguns déficits e novas rodadas astutas de impressão de dinheiro, e a produção de tratores rapidamente voltará aos níveis de antes.”
E assim como ocorreu durante o colapso dos estados socialistas, a burocracia do papel-moeda estatal também possui seus crentes fervorosos, que se negam a enxergar o óbvio. Pessoas como o economista Adam Posen, grande entusiasta das políticas de “afrouxamento quantitativo” do Banco da Inglaterra mantêm um otimismo e uma fé pueris no poder mágico da impressora. Se 200 bilhões de libras criadas pelo Banco Central inglês, engenhosamente colocados nos cofres dos bancos e do governo, não solucionaram a crise, então certamente as próximas 75 bilhões de libras irão. E por que parar por aí? Com mais 175, ou 275 ou 375 bilhões de libras, todos os britânicos irão novamente encontrar bons empregos, com bons salários. Para pessoas como Posen, o problema com uma economia planejada não é que ela seja planejada, mas sim que o planejamento não esteja sendo suficientemente ousado.
Já o presidente do Banco Central da Inglaterra, Mervyn King, parece fazer as vezes de Gorbachev: ele não é um descrente, mas é cético e esperto o bastante para não se apresentar como um membro completo deste Politburo. Há uma fascinante entrevista sua, de setembro do ano passado, que não ganhou a atenção que deveria nos círculos financeiros, presumivelmente porque era parte de um programa de história da BBC sobre o papel-moeda da China e não sobre as políticas monetárias atuais. Você pode conferi-la aqui, vale muito a pena. Se você for ao marco de 11 minutos e 58 segundos, verá a seguinte pergunta lhe sendo feita: estariam todos os sistemas baseados em dinheiro de papel fadados ao colapso? King responde que não, crê ele, nem todos (embora absolutamente todos de fato já tenham fracassado), mas admite que a recente crise fez com que ele se tornasse um pouco mais cauteloso quanto a essa sua afirmação. Talvez o júri que irá decidir sobre o destino do dinheiro de papel ainda não tenha retornado à bancada. Pensamento notável para um banqueiro central.
Em meu novo livro Paper Money Collapse – The Folly of Elastic Money and the Coming Monetary Breakdown, demonstro — conclusivamente, creio eu — que sistemas baseados em dinheiro elástico são sempre inferiores a sistemas baseados em dinheiro inelástico, e que sistemas de dinheiro elástico não podem se manter estáveis; eles sempre, inevitavelmente, desorganizam e perturbam o mercado, levando a um acúmulo de desequilíbrios ao longo do tempo. Eles inevitavelmente acabam em desintegração econômica e caos. O dinheiro de papel não é apenas ineficiente; ele é insustentável.
Esta crise ilustra simplesmente o fim da mais recente encarnação de um sistema monetário fiduciário e estatal. Assim como a primeira crise do socialismo, esta crise também irá afetar as vidas de inúmeras pessoas, irá causar revoltas, sublevações e irá desalojar toda uma elite financeira de sua arraigada e bem estabelecida posição de poder e privilégio. Assim como a primeira crise do socialismo, temos uma oportunidade de liberdade.
Porém, ao contrário da primeira crise do socialismo, desta vez não há um Muro de Berlim a ser derrubado, e nem um canteiro lamacento no interior da Hungria com um buraco na cerca, por meio do qual podemos atravessar. O atual socialismo monetário é global. E o colapso deste sistema também será global.
Obviamente, os estados têm tudo a perder, e o poder estatal tem o hábito de não aceitar pacificamente perdas de poder. Sabe-se lá o que pode acontecer. Talvez haja estatizações de bancos, imposição de controles de capital, confisco de ouro em posses privadas ou mesmo uma pesada tributação do metal, banimento total da Bitcoin e a imposição de que todos os fundos de pensão comprem mais títulos do governo.
Neste caso, pode-se argumentar que não estamos no verão de 1989, mas sim na primavera de 1968. Não mudaria o estágio final, apenas a linha do tempo. Mas ainda assim creio que já é tarde demais. Estamos mais próximos do ‘momento Muro de Berlim’ do atual sistema do que muita gente imagina.
Até lá, a devastação do papel-moeda vai continuar.
A farsa radical
Olavo de Carvalho
Jornal do Brasil, 21 de junho de 2007
O capitalismo distribuiu a imensas massas de classe média benefícios que antes eram privilégios da aristocracia. Mas a aristocracia pagava um alto preço por eles: era a casta guerreira, pronta a morrer no campo de batalha em lugar dos comerciantes e camponeses, isentos a priori de obrigação militar. Uma vida de liberdade e prazeres à sombra da morte iminente ou uma vida de trabalho e abstinência na relativa segurança da rotina econômica, eis as duas formas básicas de existência que, no seu equilíbrio mútuo, marcaram o repertório da humanidade ocidental até pelo menos o começo do século XIX.Cento e poucos anos bastaram para que, em amplas áreas da superfície terrestre, não só o acesso a uma quantidade de bens materiais nunca antes imaginados, mas a liberdade e os meios para a busca de prazeres praticamente sem limites fossem abertos à pequena burguesia e a boa parte da classe trabalhadora, sem que a isso correspondesse um acréscimo de obrigações morais. Bem ao contrário, a demanda crescente de satisfações veio acompanhada de uma intolerância cada vez maior ao sofrimento e da revolta geral contra toda forma de “repressão”. A eternidade e a morte desapareceram do horizonte, a primeira tornando-se uma ficção de outras épocas, a segunda uma idéia indecente, proibida nas conversações saudáveis. Em pouco tempo a Europa e as Américas povoaram-se de uma nova classe de adolescentes crônicos, ávidos de sensações, rebeldes a toda limitação, desfrutando da obra dos séculos como se fosse um direito natural e vivendo cada dia como se fosse a data inaugural de uma espécie de eternidade terrestre.Postiça, desequilibrada, fútil e baseada na ingratidão radical para com as gerações anteriores, essa forma de vida produziu uma tremenda acumulação de culpas inconscientes, as quais, não podendo recair sobre os culpados autênticos – que toleram a idéia de culpas ainda menos que a da morte — são projetadas de volta sobre a fonte de seus benefícios imerecidos. Daí o aparente paradoxo, tantas vezes notado, de que o ódio ao capitalismo não germine entre suas supostas vítimas, os pobres, mas justamente entre seus principais favorecidos: a classe média, os estudantes e intelectuais, o beautiful people da mídia e da moda, os filhinhos-de-papai que vão à universidade num BMW de cem mil dólares e destróem o refeitório porque a comida não é de graça. Não há nisso paradoxo algum: há apenas a lógica implacável da projeção neurótica. A premissa oculta dessa lógica é o fato de que o verdadeiro pecado do capitalismo, a ruptura do equilíbrio natural entre prazeres e deveres, não pode ser denunciado. Tornou-se um tabu. É preciso então inventar culpas imaginárias, negar a realidade manifesta da prosperidade geral crescente e, num giro lógico formidável, imputar ao capitalismo até mesmo a miséria dos países socialistas.
Grande ou pequeno, moderado ou extremado, todo rebelde anticapitalista, sem exceção, é um farsante – não só nas suas atitudes exteriores, mas na base mesma da sua personalidade, na raiz do seu estilo de vida.
A nova ordem nacional
Olavo de Carvalho
Jornal do Brasil, 13 de julho de 2007
Inexistindo por completo a alardeada epidemia de violência assassina contra os homossexuais, o objetivo manifesto da campanha “anti-homofóbica” é transformar em objeto de ódio, discriminação, perseguição e castigo aviltante quem quer que se oponha às ambições do movimento gay e forças políticas associadas.Não se trata de iniciativa isolada. Articula-se com outras tantas ações concomitantes e sucessivas destinadas a ampliar cada vez mais o leque de condutas consideradas socialmente indesejáveis e a torná-las puníveis por lei, colocando à disposição dos partidos de esquerda e “movimentos sociais” os meios jurídicos de destruir, sem perseguição política ostentiva, toda e qualquer oposição, mesmo individual e isolada, mesmo puramente verbal e teórica.
A tempestade de novos regulamentos fiscais, trabalhistas, moralistas, ecológicos, feministas, criancistas, desarmamentistas, africanistas e agora gayzistas que se abateu sobre o país coloca virtualmente todos os brasileiros fora da lei, restando apenas ao governante escolher, na multidão inumerável dos culpados, aqueles que lhe convém esmagar de imediato e aqueles que lhe interessa manter de joelhos sob o látego da chantagem permanente.
Em cada um desses casos, a absurdidade intrínseca da regra punitiva é calculada para inviabilizar o debate racional, quebrar toda resistência psicológica e reduzir a população a um estado de passividade atônita, mãe da obediência servil.
O professor da UnB punido por dizer uma palavra proibida (ou melhor, uma palavra de uso presidencial exclusivo), o juiz processado por tentar proteger os menores de idade contra a visão de indecências que não escassearam na Parada Gay, o pastor perseguido por fazer o que sua religião manda, o fazendeiro encarcerado por ter uma arma para se defender, a empresária exposta à execração pública por não cumprir exigências impossíveis, são exemplos do destino que espera cada um de nós que se atreva, nos próximos anos, a acreditar que tem direitos, que neste país há instituições democráticas, ordem e justiça.
Que tanto empenho em criminalizar os cidadãos venha junto com a omissão oportunista e cúmplice ante a violência assassina das gangues armadas e ante a prepotência dos invasores e incendiários de fazendas, não é coincidência de maneira alguma. É a articulação didática da ilegalidade cínica com o legalismo opressivo, planejada para inculcar na mente do povo, pelo jogo hipnótico da estimulação contraditória, a autoridade absoluta da nova ordem. É a fórmula inconfundível e infalível da construção do poder totalitário pelas vias sutis – às vezes não muito sutis — da dominação psicológica.
O próximo capítulo da série já está em preparação: é o embelezamento moral da pedofilia, seguido de sua consagração como direito humano e da condenação de toda resistência como fruto da intolerância reacionária, nazista, assassina etc. etc. etc. Exagero meu? No meio universitário, berço das mutações culturais, as idéias simpáticas à pedofilia já vão se espalhando com uma velocidade mais que ameaçadora. Aguardem e verão.
Um capítulo de memórias
Olavo de Carvalho
Diário do Comércio, 23 de junho de 2008
Que o leitor me permita começar este artigo por um episódio da minha porca vida, do qual espero tirar algumas conclusões de interesse geral.
Tão logo cheguei a este mundo, uma estranha infecção pulmonar adiou meu ingresso oficial nele durante sete anos, reduzindo-me a um estado de inconsciência febril e delirante do qual só emergi no dia de ir para a escola, se bem que meus desafetos digam que não saí dele jamais.
Embutido no uniforme, eu me parecia exteriormente com os demais meninos, mas por dentro era um bebê, simplório como um passarinho, por total ignorância não só dos pecados como também de tudo o mais.
Sendo a escola uma instituição religiosa, os professores leram-me trechos do Evangelho, que me comoviam até às lágrimas, mas daí, mediante uma lógica que me escapava, deduziam e me atribuíam a incumbência de confessar meus pecados, dos quais o único que me ocorria, na minha desesperadora pobreza de repertório, era o pecado original. Disfarçando como podia a minha radical incompreensão do estado de coisas, entrei na fila do confessionário esperando que quando chegasse a minha vez tudo se esclareceria. Mas foi então que veio o pior. De trás de uma cortina que o tornava semi-invisível, um padre não identificado me perguntou:
– Você fez porcarias?
Eu não tinha a mais mínima idéia do que podiam ser as tais porcarias, mas, fossem lá o que fossem, pareciam ser comuns a toda a humanidade, de modo que, por mera precaução, respondi: “Sim.” E já ia me sentindo muito aliviado pelo meu sucesso neste teste inicial, quando o padre voltou à carga:
– Com meninos ou com meninas?
Agora ele me pegou, pensei aterrorizado. Como poderia eu supor que aquele delito misterioso e incognoscível se praticava com ambos os sexos? Não querendo, porém, dar o braço a torcer, declarei peremptoriamente: “Com os dois.” Feito isso, fui liberado para a parte leve do serviço, que consistiu em rezar dez Pai-Nossos e dez Ave-Marias, coisa que eu já fazia habitualmente sem ter de passar por aquele vexame preliminar.
Alguns meses se passaram antes que eu recebesse alguma informação fidedigna quanto à natureza das porcarias – e mesmo depois de cientificado ainda continuei duvidando que as pessoas fizessem mesmo aquelas coisas, as quais me pareciam sumamente despropositadas e tediosas. Tardiamente chegado a um universo repleto de estímulos e desafios, eu não podia conceber que alguém perdesse seu tempo “fazendo porcarias” em vez de se dedicar a alguma atividade mais substantiva como jogar bolinha de gude, brincar de Roy Rogers ou ir à matinê ver os desenhos de Tom & Jerry.
Mais tarde informaram-me que alguns meninos se dedicavam mesmo a um exercício denominado “troca-troca”, mas, como jamais eu visse nenhum deles se entregando a essa prática, permaneci incrédulo, só fingindo acreditar em tudo para não desagradar a ninguém e para não parecer ainda mais esquisito do que aquilo me parecia a mim. As porcarias, no fundo, se é que existiam mesmo, deviam ser coisa de gente grande, aquelas pessoas aborrecidas que só falavam de assuntos chatos – dívidas, doenças, arrumação de casa, políticos corruptos, juízes de futebol ladrões – e, para cúmulo, achavam normal comer brócolis em vez de sorvete. Que encanto pudesse haver nos seus afazeres porcaríferos era algo que me escapava por completo.
Quando, finalmente, compreendi do que se tratava, admiti que podia até haver algum interesse na coisa, mas aí um outro fenômeno me chamou a atenção, e este não era nem um pouco divertido: meditando a experiência da minha primeira confissão, descobri o abismo imensurável e sem fundo que pode haver entre a realidade da nossa alma e as imagens padronizadas que somos chamados a personificar na sociedade, imagens pelas quais os outros nos reconhecem, que eles chamam pelo nosso nome e nas quais, pelo efeito da repetição, acabamos por acreditar, sufocando a memória da nossa experiência efetiva e substituindo-a por um arranjo cômodo de aparências, que por sua vez se amoldam tão bem às necessidades da comunicação diária que acabamos por achar que são o verdadeiro “eu”.
A essa altura, aquela parte que ficou para trás, sem nome, não desaparece de todo, mas, excluída do mundo da linguagem, torna-se o nosso depósito pessoal de fantasmas, de temores inconfessáveis, de vergonhas indizíveis, de sensações informes e incomunicáveis.
Durante o meu período de doença, conheci mais dores e sofrimentos do que em geral os meninos da minha idade podiam sequer imaginar. Era todo um universo sombrio, opressivo, fechado. Sobretudo incomunicável: eu bem via o rosto angustiado de minha mãe, de meu pai, de meus tios, tentando puxar a minha dor para si próprios mas conseguindo apenas olhá-la de fora, atônitos e inermes, e atormentar-se em vão. Todo mundo passa por experiência semelhante algum dia, seja por meio da doença, da pobreza, da loucura, do abandono, da prisão. Minha diferença é que eu conheci esse lado obscuro da vida antes de conhecer qualquer outra coisa. Quando emergi desse inferno, tudo em volta me parecia tão interessante, tão bonito, tão atraente, que a hipótese de alguém poder entediar-se ao ponto de ter de buscar uma fonte extra de deleites me parecia simplesmente inverossímil. Eu não conhecia o sexo e, no meu deslumbramento com tudo o mais, não imaginava que alguém pudesse precisar dele (tudo o que depois li sobre sexualidade infantil me parece uma bobagem descomunal). Mas a estranha conjunção de uma experiência prematura do sofrimento humano com a ignorância radical de fatos elementares da fisiologia fez de mim uma incongruência viva, como Lao-Tseu, que nasceu velho e com o tempo foi se tornando um bebê. Claro, eu não era o único esquisitão do universo. Mais tarde descobri que cada ser humano tem por dentro algo de radicalmente diferente dos outros, um recinto próprio que a linguagem mal consegue penetrar e que, embora constitua a sua existência mais íntima e pessoal, acabará sendo totalmente ignorado pelos que em torno imaginam conhecê-lo. Toda a riqueza e o interesse da convivência humana consiste em usar os esterereótipos como meros bilhetes de ingresso nesse recinto, jogando-os fora tão logo entramos mais fundo na alma alheia. Mas como poderíamos fazer isso, se tudo em volta nos convida a encarnar os estereótipos cada vez mais esforçadamente, com um arremedo de sinceridade cada vez mais perfeito, até acabarmos acreditando que eles são nós?
As sociedades humanas podem ser comparadas – e julgadas – pelo seu sucesso ou fracasso em transmutar a linguagem comum em instrumento do encontro genuíno entre os seres humanos. E, de tudo o que vi e vivi depois, concluí que a sociedade brasileira se destaca pelo total desinteresse em fazer isso, pela acomodação complacente a uma convivência feita só de estereótipos. Foi isso o que o conde de Keyserling, aquele observador arguto, notou ao dizer que, enquanto nos outros países as pessoas só imitam aquilo que desejam tornar-se no futuro, os brasileiros se contentam com a imitação enquanto tal, esmerando-se nela ao ponto de esquecer que é possível ser algo na realidade e acabando por acreditar que a única coisa a esperar da vida é o sucesso no fingimento. Não é à toa que a obra do maior dos nossos ficcionistas é uma galeria de fingidos, hipócritas e palhaços como jamais se viu no mundo. Em Machado de Assis o único personagem sincero, o único que fala consigo mesmo e tenta se compreender a si próprio e aos outros, o conselheiro Aires, acaba vivendo num prudente e recatado isolamento. Isso explica muita coisa da nossa política.
No meu caso, justamente a confissão, que deveria ser o encontro mais íntimo da consciência interior com o observador onissapiente, acabou se transformando no desencontro completo entre a rotina de um confessor entediado e a confusão mental de um menino ignorante. O Papa João Paulo II acertou em cheio quando disse que os brasileiros são cristãos no sentimento, mas não na fé. Não existe fé sem vida interior, mas a vida interior começa pelo ingresso naquele recinto fechado, sombrio, e pelo esforço de comunicar o incomunicável. O brasileiro acha isso angustiante demais e, buscando alívio numa familiaridade fácil, acaba por se transformar no seu próprio estereótipo.
POBRE É “REACIONÁRIO” E GOSTA É DE PROPRIEDADE. QUEM GOSTA DE “COMUNIDADE” É ESQUERDISTA E JORNALISTA
Caras e caros,
Escreverei um post sobre o mais político de todos os assuntos, embora não pareça à primeira vista. Já li os três principais jornais do país — Globo, Estadão e Folha. A notícia mais importante do dia refere-se à construção de apartamentos populares na favela de Heliópolis, a maior de São Paulo. Na verdade, nem favela é mais. Trata-se de um grande bairro pobre, que hoje já abriga muitos ricos que vivem da intensa atividade comercial ali existente. Sigamos. Os bem-pensantes — pessoas de esquerda ou que pagam pedágio intelectual à esquerda para não ficar com má fama — acreditam que a pobreza cria a sua própria moralidade.
Talvez suponham que a miséria cause, sei lá, alguma alteração no córtex cerebral do vivente, o que o faria trilhar caminhos mentais estranhos a seres humanos das classes média e alta. E, no entanto, eu lhes digo: a única coisa boa que a especificidade da pobreza pode produzir num pobre é a vontade de se livrar… da pobreza! É claro que ninguém é pobre porque quer, mas o Brasil só sairá da areia quando ficar bem claro que é preciso querer não ser pobre, entenderam? Os tais bem-pensantes e os MILITONTOS políticos adoram acreditar que os pobres deveriam ser mais propensos à generosidade do que os ricos. Por quê? Alguém poderia explicar ao Tio Rei por que o termo A induziria o termo B?
Leio na Folha que, em Heliópolis, moradores incluídos no sistema habitacional formal recorrem a muros, grades e esquemas de segurança para se proteger. É visível que a reportagem trata do assunto segundo, vamos dizer assim, um olhar crítico, COMO SE OS POBRES BENEFICIADOS TIVESSEM MUDADO DE LADO E JÁ NÃO DESSEM MAIS BOLA PARA O SEU IRMÃO. Chama isso de “segregação”. Vale a pena ler um trecho:
Primeiro foram muros. Depois grades, cadeados e a fechadura. Na entrada do prédio, um aviso aos moradores: “Mantenham o portão fechado para nossa segurança”.
A cena, comum em condomínios de classes média e alta, surge agora em Heliópolis, maior favela paulistana, e em outras regiões periféricas.
Uma vez incluídos no sistema habitacional formal, os moradores também acabam optando pela segregação.
O fenômeno já levou a prefeitura a reavaliar os projetos de intervenção em favelas.
Uma representante da Prefeitura de São Paulo – Elisabete França, superintendente de habitação popular – dá a sua opinião, também crítica ao que está em curso:
“As pessoas repetem o modelo que conhecem. Muro não é seguro, não é solução. É uma coisa cultural brasileira”, afirma.
O arquiteto Ruy Ohtake, autor de um dos projetos de intervenção em Heliópolis -”sem muros, cercas ou grades”, informa o jornal – não gosta do que vê:
“Há um espelhamento na classe média, que, de 20 anos para cá, ficou cercada. A comunidade tem de entender a urbanização. É preciso conversar com esses moradores para retirar esses fechos”.
Salvação, não problema
Se esse movimento está em curso, então volto a ter esperanças. Vai ver é por isso que as condições de vida em Heliópolis têm melhorado tanto. É bem verdade que a área abriga várias ações sociais da Prefeitura e do Estado, mas basta passar na avenida que margeia um dos lados do bairro para perceber uma vida econômica bastante intensa. Sabem o que isso significa? AMOR À PROPRIEDADE! Sem ele, não existe civilização, ou apontem culturas que tenham florescido sem que cada indivíduo tenha a chance de dizer: “Isto é meu”.
Algo de realmente alvissareiro está em curso. Entrega-se um conjunto habitacional a um grupo de moradores, e eles se organizam, elegem um síndico, e este, informa a reportagem, adquire equipamentos de segurança. Estão no rumo certo, acho eu.
Informa a Folha:
A maioria dos conjuntos entregues agora, como os da Nova Jaguaré, zona oeste, são cercados. Em Itaquera, do outro lado da cidade, além de muros, os moradores instalaram portões com controle remoto para os carros.
Segundo entendi, a Prefeitura passou a entregar os conjuntos já cercados para que os moradores não venham a fazê-lo depois, por conta própria. Se é isso mesmo, está de parabéns! É preciso que as pessoas beneficiadas por esses programas passem a zelar por aquilo que receberam. Não existe “propriedade coletiva” — “espaço público” é outra coisa. Uma praça é de todos; um conjunto de apartamentos tem de pertencer aos moradores, que devem ser estimulados a zelar por aquilo que é seu. A reportagem, no entanto, está condoída: “Era uma favela, transformada num conjunto habitacional de 296 apartamentos, ainda rodeado de pobreza.” Segundo entendi, ninguém construiu os apartamentos para extinguir a pobreza do bairro ou do mundo. Ele foi erguido para beneficiar um conjunto de moradores, tornados proprietários.
No mundo idílico das esquerdas e do pensamento politicamente correto, esses pobres receberiam as suas casas e, muito comovidos, passariam a dividir o espaço com seus irmãos de classe, unidos por aquele belíssimo princípio do “nada é de ninguém”, que é o que costumo chamar de “idealismo da caverna” — não a de Platão, mas aquela do “huga-huga”…
Começo a ficar mais esperançoso com os nossos pobres. Só falta agora a gente consolidar o princípio, que anda meio frouxo, de que todos têm o direito à propriedade, mas que a propriedade, não sendo um direito natural, não pode ser tomada na marra. Como boa parte das coisas da vida, ela tem de ser conquistada — e conquistas demandam esforços individuais.
O ser humano, gente, felizmente, é assim mesmo: egoísta! Não fosse, ainda estaria escondido em algum buraco, com medo do trovão. Até a Sinhá Vitória, de Vidas Secas, sonhava com dias melhores para poder ter a sua cama de ripa, em vez de dormir na rede. Eu sei que os esquerdopatas e os politicamente corretos, entediados com a abastança, contavam com os pobres para criar uma nova civilização. Mas, surpresa!, eles gostam mesmo é da velha, daquela em que um homem pode dizer: “Isto é meu”. Ao fazê-lo, vieram ao mundo Shakespeare, o vaso sanitário, as vacinas e o Chicabom.
O cérebro do pobre é igualzinho ao do esquerdista e do politicamente correto — só que sem titica ideológica. Dou vivas à cerca, ao portão, ao muro! Dou vivas à propriedade!
Por Reinaldo Azevedo
Que é uma sociedade justa?

Olavo de Carvalho
Quando se pergunta qual o conceito que fazemos de uma sociedade justa, a palavra “conceito” entra aí com um sentido antes americano – pragmatista – do que greco-latino: em vez de designar apenas a fórmula verbal de uma essência ou ente, significa o esquema mental de um plano a ser realizado. Nesse sentido, evidentemente, não tenho conceito nenhum de sociedade justa, pois, persuadido de que não cabe a mim trazer ao mundo tão maravilhosa coisa, também não me parece ocupação proveitosa ficar inventando planos que não tenciono realizar.
O que está ao meu alcance, em vez disso, é analisar a ideia mesma de “sociedade justa” – o seu conceito no sentido greco-latino do termo – para ver se faz sentido e se tem alguma serventia.
Desde logo, os atributos de justiça e injustiça só se aplicam aos entes reais capazes de agir. Um ser humano pode agir, uma empresa pode agir, um grupo político pode agir, mas “a sociedade”, como um todo, não pode. Toda ação subentende a unidade da intenção que a determina, e nenhuma sociedade chega a ter jamais uma unidade de intenções que justifique apontá-la como sujeito concreto de uma ação determinada. A sociedade, como tal, não é um agente: é o terreno, a moldura onde as ações de milhares de agentes, movidos por intenções diversas, produzem resultados que não correspondem integralmente nem mesmo aos seus propósitos originais, quanto mais aos de um ente genérico chamado “a sociedade”!
“Sociedade justa” não é portanto um conceito descritivo. É uma figura de linguagem, uma metonímia. Por isso mesmo, tem necessariamente uma multiplicidade de sentidos que se superpõem e se mesclam numa confusão indeslindável. Isso basta para explicar por que os maiores crimes e injustiças do mundo foram praticados, precisamente, em nome da “sociedade justa”. Quando você adota como meta das suas ações uma figura de linguagem imaginando que é um conceito, isto é, quando você se propõe realizar uma coisa que não consegue nem mesmo definir, é fatal que acabe realizando algo de totalmente diverso do que esperava. Quando isso acontece há choro e ranger de dentes, mas quase sempre o autor da encrenca se esquiva de arcar com suas culpas, apegando-se com tenacidade de caranguejo a uma alegação de boas intenções que, justamente por não corresponderem a nenhuma realidade identificável, são o melhor analgésico para as consciências pouco exigentes.
Se a sociedade, em si, não pode ser justa ou injusta, toda sociedade abrange uma variedade de agentes conscientes que, estes sim, podem praticar ações justas ou injustas. Se algum significado substantivo pode ter a expressão “sociedade justa”, é o de uma sociedade onde os diversos agentes têm meios e disposição para ajudar uns aos outros a evitar atos injustos ou a repará-los quando não puderem ser evitados. Sociedade justa, no fim das contas, significa apenas uma sociedade onde a luta pela justiça é possível. Quando digo “meios”, isso quer dizer: poder. Poder legal, decerto, mas não só isso: se você não tem meios econômicos, políticos e culturais de fazer valer a justiça, pouco adianta a lei estar do seu lado. Para haver aquele mínimo de justiça sem o qual a expressão “sociedade justa” é apenas um belo adorno de crimes nefandos, é preciso que haja uma certa variedade e abundância de meios de poder espalhados pela população em vez de concentrados nas mãos de uma elite iluminada ou sortuda. Porém, se a população mesma não é capaz de criar esses meios e, em vez disso, confia num grupo revolucionário que promete tomá-los de seus atuais detentores e distribuí-los democraticamente, aí é que o reino da injustiça se instala de uma vez por todas. Para distribuir poderes, é preciso primeiro possuí-los: o futuro distribuidor de poderes tem de tornar-se, antes, o detentor monopolístico de todo o poder. E mesmo que depois venha a tentar cumprir sua promessa, a mera condição de distribuidor de poderes continuará fazendo dele, cada vez mais, o senhor absoluto do poder supremo.
Poderes, meios de agir, não podem ser tomados, nem dados, nem emprestados: têm de ser criados. Caso contrário, não são poderes: são símbolos de poder, usados para mascarar a falta de poder efetivo. Quem não tem o poder de criar meios de poder será sempre, na melhor das hipóteses, o escravo do doador ou distribuidor.
Na medida em que a expressão “sociedade justa” pode se transmutar de figura de linguagem em conceito descritivo razoável, torna-se claro que uma realidade correspondente a esse conceito só pode existir como obra de um povo dotado de iniciativa e criatividade – um povo cujos atos e empreendimentos sejam variados, inéditos e criativos o bastante para que não possam ser controlados por nenhuma elite, seja de oligarcas acomodados, seja de revolucionários ambiciosos.
A justiça não é um padrão abstrato, fixo, aplicável uniformemente a uma infinidade de situações padronizadas. É um equilíbrio sutil e precário, a ser descoberto de novo e de novo entre as mil e uma ambiguidades de cada situação particular e concreta. No filme de Sidney Lumet, “The Verdict” (1982), o advogado falido Frank Galvin, esplendidamente interpretado por Paul Newman, chega a uma conclusão óbvia após ter alcançado uma tardia e improvável vitória judicial: “Os tribunais não existem para fazer justiça, mas para nos dar uma oportunidade de lutar pela justiça”. Nunca me esqueci dessa lição de realismo. A única sociedade justa que pode existir na realidade, e não em sonhos, é aquela que, reconhecendo sua incapacidade de “fazer justiça” – sobretudo a de fazê-la de uma vez para sempre, perfeita e uniforme para todos –, não tira de cada cidadão a oportunidade de lutar pela modesta dose de justiça de que precisa a cada momento da vida.
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Escritor, filósofo e professor, Olavo de Carvalho tem vários livros publicados, dentre os quais, O Imbecil Coletivo, O Jardim das Aflições e Aristóteles em Nova Perspectiva – Introdução à Teoria dos Quatro Discursos. Fundador e editor chefe do site Mídia Sem Máscara, mantem uma coluna no jornal paulista Diário do Comércio, ministra aulas semanais no Seminário de Filosofia, e é presidente do The Inter-american Institute.
Olavo de Carvalho | 06 Junho 2011
Artigos – Cultura
Em todo o território nacional, só três coisas funcionam: a coleta de impostos, o narcotráfico e o agronegócio, que tapa o rombo aberto pelos outros dois e é, por isso mesmo, o mais odiado, o mais xingado dos três.
O Foro de São Paulo, aquela entidadezinha que segundo os eminentes bambambãs do jornalismo brasileiro não tinha importância nem força nenhuma, aquela organização fantasmal na qual só os paranoicos enxergavam alguma periculosidade, domina agora metade da América Latina e não dá o menor sinal de cansaço na sua marcha para a conquista do continente inteiro.
No Brasil, os partidos de direita agonizam. Seus líderes se afobam e se atropelam na pressa obscena de mostrar subserviência ao vencedor. O homem que entre sorrisos de autossatisfação elevou a dívida nacional à casa dos trilhões, desgraçando as gerações futuras para ganhar os votos da presente, continua sendo aplaudido como o salvador da nossa economia e prepara seu reingresso triunfal no Palácio do Planalto. Denunciado à Justiça como corrupto e corruptor, ri e aposta, como um ladrãozinho qualquer, na lentidão dos tribunais, que não o pegarão em vida.
Os bandos criminosos, treinados e armados pelas Farc – por sua vez amparadas pela benevolência oficial -, matam 40 mil brasileiros por ano e, pela força desse exemplo, mantêm inerme e cabisbaixa uma população à qual o governo sonega tanto a proteção policial quanto os meios de autodefesa. Nas escolas, as crianças aprendem a cultuar a sodomia e a desprezar a gramática, só fazendo jus aos últimos lugares nos testes internacionais pela razão singela de que não há um lugar abaixo do último.
As indústrias chamam técnicos do exterior, porque das universidades brasileiras não vem ninguém alfabetizado. Em todo o território nacional, só três coisas funcionam: a coleta de impostos, o narcotráfico e o agronegócio, que tapa o rombo aberto pelos outros dois e é, por isso mesmo, o mais odiado, o mais xingado dos três.
Os juízes usam a Constituição como papel higiênico e a única ordem jurídica que resta é a prepotência dos grupos de pressão subsidiados por fundações estrangeiras. As Forças Armadas se aviltam, respondendo a cusparadas com muxoxos e rastejando ante os que as desprezam.
A alta cultura desapareceu, há trinta anos não surge um escritor digno desse nome; as poucas mentes criadoras que restam fogem para o exterior ou definham no isolamento, o simulacro de pesquisa científica com que as universidades sugam bilhões de reais do contribuinte nada produz que valha a pena ler.
Uma ortografia de loucos acabou se impondo como lei, assinada, e não por acaso, por um presidente analfabeto. Um palhaço iletrado que se elegeu por gozação é nomeado, na Câmara, para a Comissão de Cultura, um cargo para o qual, com toda a evidência, não se requer cultura nenhuma.
Nas discussões públicas, as mentes iluminadas de comentaristas e acadêmicos se dispersam em mil e um detalhes fúteis, ostentando falsa esperteza sem jamais atinar com a forma geral do processo histórico que toda semana as desmente e as ridiculariza. E quanto mais erram, mais inteligentes parecem a um público que elas próprias emburreceram precisamente para isso.
Em suma, está tudo exatamente como há décadas venho anunciando que ia estar, e só me resta o consolo amargo de ter tido razão onde o erro teria sido mil vezes preferível. O povo mostrou-se incapaz de controlar seus governantes, os governantes incapazes de controlar seus mais baixos instintos, a elite nominalmente pensante incapaz até mesmo de acompanhar o que está acontecendo, quanto mais de prever o que vai acontecer em seguida.
O Brasil está dando um espetáculo de inconsciência, de insensibilidade, de sonsice irresponsável como jamais se viu no mundo. É um país que vive de mentiras autolisonjeiras enquanto naufraga em caos, sangue, dívidas e abominações de toda sorte.
Princpios de uma poltica conservadora
- Publicado em Domingo, 26 Junho 2011 18:02
- Escrito por Olavo de Carvalho
Estes princípios não são regras a ser seguidas na política prática. São um conjunto de critérios de reconhecimento para você distinguir, quando ouve um político, se está diante de um conservador, de um revolucionário ou de um “liberal”, no sentido brasileiro do termo hoje em dia (uma indecisa mistura dos dois anteriores).
1) Ninguém é dono do futuro. “O futuro pertence a nós” é um verso do hino da Juventude Hitlerista. É a essência da mentalidade revolucionária. Um conservador fala em nome da experiência passada acumulada no presente. O revolucionário fala em nome de um futuro hipotético cuja autoridade de tribunal de última instância ele acredita representar no presente, mesmo quando nada sabe desse futuro e não consegue descrevê-lo se não por meio de louvores genéricos a algo que ele não tem a menor ideia do que seja.
Quando o ex-presidente Lula dizia “não sabemos qual tipo de socialismo queremos”, ele presumia saber : (a) que o socialismo é o futuro brilhante e inevitável da História, quando
a experiência nos mostra que é na verdade um passado sangrento com um legado de mais de cem milhões de mortos; (b) que ele e seus cúmplices têm o direito de nos conduzir a uma repetição dessa experiência, sem outra garantia de que ela será menos mortífera do que a anterior exceto a promessa verbal saída da boca de alguém que, ao mesmo tempo, confessa não saber para onde nos leva.
A mentalidade revolucionária é uma mistura de presunção psicótica e de irresponsabilidade criminosa.
2) Cada geração tem o direito de escolher o que lhe convém. Isto implica que nenhuma geração tem o direito de comprometer as subsequentes em escolhas drásticas cujos efeitos quase certamente maléficos não poderão ser revertidos jamais ou só poderão sê-lo mediante o sacrifício de muitas gerações. O povo tem, por definição, o direito de experimentar e de aprender com a experiência, mas, por isso mesmo, não tem o direito de usar seus filhos e netos como cobaias de experiências temerárias.
3) Nenhum governo tem o direito de fazer algo que o governo seguinte não possa desfazer. É um corolário incontornável do princípio anterior. As eleições periódicas não fariam o menor sentido se cada governo eleito não tivesse o direito e a possibilidade de corrigir os erros dos governos anteriores. A democracia é, portanto, essencialmente hostil
a qualquer projeto de mudança profunda e irreversível da ordem social, por pior que esta seja em determinado momento.
Nenhuma ordem social gerada pelo decurso dos séculos é tão ruim quanto uma nova ordem imposta por uma elite iluminada que se crê, sem razão, detentora do único futuro desejável. No curso dos três últimos séculos não houve um só experimento revolucionário que não resultasse em destruição, morticínio, guerras e miséria generalizada. Não se vê como os experimentos futuros possam ser diferentes.
4) Nenhuma proposta revolucionária é digna de ser debatida como alternativa respeitável num quadro político democrático. A revogabilidade das medidas de governo é um princípio incontornável da democracia, e toda proposta revolucionária, por definição, nega esse princípio pela base. É impossível colocar em prática qualquer proposta revolucionária sem a concentração do poder e sem a exclusão, ostensiva ou camuflada, de toda proposta alternativa. Não se pode discutir alternativas com base na proibição de alternativas.
5) A democracia é o oposto da política revolucionária. A democracia é o governo das tentativas experimentais, sempre revogáveis e de curto prazo. A proposta revolucionária é necessariamente irreversível e de longo prazo. A rigor, toda proposta revolucionária visa a transformar, não somente uma sociedade em particular, mas a Terra inteira e a própria natureza humana.
É impossível discutir democraticamente com alguém que não respeita sequer a natureza do interlocutor, vendo nela somente a matéria provisória da humanidade futura. É estúpido acreditar que comunistas, socialistas, fascistas, eurasianos e tutti quanti possam integrar-se pacificamente na convivência democrática com facções políticas infinitamente menos ambiciosas. Será sempre a convivência democrática do lobo com o cordeiro.
6) A total erradicação da mentalidade revolucionária é a condição essencial para a sobrevivência da liberdade no mundo. A mentalidade revolucionária não é um traço permanente da natureza humana. Teve uma origem histórica – por volta do século 18 – e terá quase certamente um fim. O período do seu apogeu, o século 20, foi o mais violento, o mais homicida de toda a História humana, superando, em número de vítimas inocentes, todas as guerras, epidemias, terremotos e catástrofes naturais observadas desde o início dos tempos.
Não há exagero nenhum em dizer que a mentalidade revolucionária é o maior flagelo que já se abateu sobre a humanidade. É uma questão de números e não de opinião. Recusar-se a enxergar isso é ser um monstro de insensibilidade. Toda política que não se volte à completa erradicação da mentalidade revolucionária, da maneira mais candente e explícita possível, é uma desconversa criminosa e inaceitável, por mais que adorne sua omissão com belos pretextos democráticos, libertários, religiosos, moralísticos, igualitários, etc.
Olavo de Carvalho é ensaísta, jornalista e professor de Filosofia
